Após uma discussão, no mínimo estranha, eu decidi que ia bloquear seu número só para não cair na tentação de procurá-lo de novo. Não. Não seria uma atitude impulsiva. Eu já tinha pensado muito sobre o assunto durante a noite anterior.

— Facilite as coisas pra mim, por favor. — pedi pra ele, como quem implora por um tiro de misericórdia.
— Estou facilitando… Eu gosto muito de você.
— Você iria facilitar se me dissesse o contrário. Por que você não diz logo que não gosta de mim?
— Então, tá. — ele retrucou como uma criança de cinco anos. — “Eu não gosto de você e é melhor ficarmos separados”. Melhorou?

Sinto que ele digitou cada palavra de um jeito irônico e mecânico, de modo que nem ele conseguiu sentir credibilidade no que acabava de me dizer. Aquela conversa já estava saindo do meu controle. Eu precisava tirá-lo da minha vida, mas não sabia como fazer isso de modo menos doloroso. E menos infantil.

— Não sei mais o que te falar. Desculpa. Vou te excluir dos meus contatos, não vejo outra opção. — eu falei, mesmo sabendo que nunca conseguiria chegar ao extremo de excluí-lo. Ainda assim, continuei: — É melhor evitar saber que você existe. Mas não porque estou com raiva de você. É porque tá machucando muito não poder te amar do jeito que eu quero.

— Ok. — ele respondeu sem mais delongas. — Vou te apagar também.

Antes mesmo de eu dizer que aquilo seria loucura, algo ali mudou. Ele foi mais rápido (e mais efetivo) do que eu. Ele me excluiu, permanentemente, dos seus contatos. De repente, uma imagem de perfil sem graça e sem cor tomou o lugar da sua foto de sempre, fazendo sumir o brilho do resto do meu dia. Me decepcionei, no fundo, por ter pensando que ele reagiria de forma diferente.

Com os olhos marejados, resolvi terminar o serviço. Pra não me sentir tão por baixo, apenas bloqueei seu número de telefone. Meu coração vestiu-se de luto e soluçou em cima do caixão dos meus sentimentos, que, para o meu espanto, ainda estavam tão vivos. Resolvi, de forma cruel, enterrá-los bem fundo, achando que, fazendo-os morrer, eu nasceria de novo. Joguei por terra todo o desejo, carinho, amizade e paixão que eu ainda sentia. Quis sufocar o pequenino amor que já me pertencia e que eu nunca veria crescer. Meu coração também foi junto, afundando, aos poucos, à sete palmos do meu peito.

A indiferença, sem dúvidas, foi a pior sentença.

As horas seguintes foram de uma amargura sem tamanho. Parecia, realmente, que alguém que eu amava tinha partido. Era triste demais acabarmos assim, como dois inimigos, ou, se não, como um casal que tanto se gostava, mas que se obrigaria a agir na indiferença.  Nunca bloqueei da minha agenda ninguém nessas circunstâncias. Nunca afastei da minha vida alguém que, de fato, não merecia. Assim como eu, ele não tinha culpa da nossa vida irresoluta, e a sua falta de culpa era o que mais me doía.

Bloquear seu contato foi um dos erros mais dolorosos que eu já cometi entre a gente. Quem sabe, foi uma das piores besteiras que eu fiz. Só o encorajou a cometer um crime pior: o da exclusão. Engraçado que nada disso adiantou. Só me causou um efeito inverso, e até um certo desespero por ter pensado que a distância forçada me faria sentir bem. Após a sensação de que ele não estaria mais presente, tudo o que eu mais desejei foi voltar atrás. Tudo o que eu desejei foi nunca mais vê-lo fora da minha agenda telefônica. E, principalmente, da minha vida.

 

Camila Barretto.