No pacote completo que dá forma ao seu jeito peculiar de ser, está a sua necessidade constante de esconder suas emoções. Dentro dessa fuga emocional, ainda ganhei de brinde a sua dificuldade imensa de falar o que sente. Sei que isso vai além do querer de uma pessoa, e perpassa aspectos humanos muito mais complexos que nem vou adentrar aqui. Mas eu percebi sua limitação desde a primeira vez em que você me deu sinais evidentes – e, ao mesmo tempo, imprecisos – de que queria me dizer algo, mas não sabia como. Desde então, passei a assumir o papel de “tradutora sentimental” da nossa efêmera relação.

Quase sempre, você foi meu inverso no quesito de demonstrações de afeto. Enquanto eu sintetizava meu amor com clareza e segurança, você parecia um daqueles bichos acuados, que, mesmo faminto, não sabia como abocanhar um pedaço de carne a um metro de distância. Enquanto eu já tinha de cor o meu discurso sobre o que se passava em meu coração, você sentia que tinha algo diferente batendo dentro do seu peito, mas não fazia ideia do nome que se dava àquilo: saudade, desejo, atração? Tanto faz. Para você, aquele sentimento bonito que te fazia estremecer na minha presença, não passava de um monte de coisa embolada e sem forma definida.

Logo no início, eu já sabia das minhas condições emocionais, e, numa tentativa de me sentir menos frustrada na minha solidão, resolvi te ajudar a pensar na possibilidade de você estar, nem que fosse um pouquinho, interessado em mim também. Primeiro, eu te ajudei a lidar com a possibilidade desse sentimento, depois, quando percebi que havia alguma esperança de ser recíproco, fiz você confessá-lo, palavra por palavra. Parece loucura, desespero ou masoquismo, mas eu fiz exatamente isso: coloquei você contra a parede e te cobrei, nem que fosse uma resposta negativa, ou alguma reação. Arrancar da sua boca a verdade sem tantos rodeios, sempre foi um exercício de grande resignação pra mim, tal como procurar uma agulha no palheiro.

Sempre me lembrarei do dia em que eu, com as mãos trêmulas, arrisquei te perguntar, de uma vez por todas, sobre o que você sentia. Primeiro, você me falou que era algo diferente. Depois, você confessou que eu tinha criado um caos e uma grande confusão na sua mente. Foi aí, quando eu já estava perdendo a paciência, que eu perguntei num só impulso: enfim, me diga logo, você acha que está se apaixonando por mim? Então, como se estivesse apenas esperando essa mensagem, você, graciosamente, respondeu: Sim. E esse é o problema. Era tudo o que eu precisava ouvir naquele momento, não fosse a palavra “problema” no meio da sua tão aguardada confissão. Em resumo, você sempre viu a sua paixão como um grande problema sem solução. Já eu, sempre lhe dei todas as possibilidades para resolvermos nossos desencontros.


Sabe, no fundo, eu não sei quem passou por maiores dificuldades nessa história. Será que foi você, com seu jeito confuso de gostar e não saber expressar o que sente, se sente, ou se deve continuar sentindo? Ou eu, com essa minha mania louca de procurar as mínimas evidências do seu sentimento, de passar horas vasculhando o palheiro das suas emoções, e no fim, me machucar quando encontro, de repente, a agulha que você chama de paixão?

A agulha que encontro feliz, mas que escapa por entre os meus dedos, tal como você, sempre escapa de mim.

Camila Barretto.

Desafio das Palavras (a versão dela)

Paulino x Camila Barretto
“Desafio das palavras” é um jogo proposto com o objetivo de versar sobre temas vindos de fora pra dentro; inspirar-se ao contrário. Dois poetas, cada um com seu olhar sobre o tema/título”.