“Era 31 de dezembro de 2015. Nem parece que se passou tanto tempo. Naquela noite, eu estava deslumbrante. Logo eu, tão acostumada com meu papel de menina, naquele fim de ano, me olhei no espelho e me senti uma mulher irresistível. Havia um rasgo insinuante na minha saia longa, que ora deixava minhas pernas à mostra, ora as escondia. Havia o vermelho provocante da minha roupa, das minhas unhas recém-pintadas, da minha boca. Havia meu perfume doce que se espalhava em meus cabelos longos e afirmava a minha personalidade. A menina inocente, definitivamente, havia mudado no dia 30 daquele mês.

Eu queria um ano novo diferente de todos que eu já tinha vivido. Eu queria uma dose extra de paixão, e acabei conseguindo, justamente, tudo aquilo que eu mais queria. Arrebatei, de uma vez, o coração de um homem que, por ora, julguei como inalcançável. Um homem mais velho. Mais maduro. Sim, eu não queria mais um menino pra descobrir as coisas comigo, eu queria aquele moreno, aquele homem para me ensinar as coisas que, até então, eu só tinha ouvido falar. A garotinha de cabelos castanhos e olhos sapecas que outro dia brincava na rua, descobriu a chance de satisfazer os seus recém-descobertos desejos. Se viu atiçada pela curiosidade do mundo adulto. Se viu vislumbrada por ser capaz de seduzir de um jeito tão eloquente. Naquela virada de ano, a menina se descobriu uma mulher prestes a fazer dezoito anos.

 

Por sorte do destino, iríamos dividir o mesmo espaço naquela festa de Réveillon. Uma festa de família e amigos, uma festa onde eu não podia perder minha compostura. ‘Controle-se, controle-se’, gritava em desespero a minha razão de adolescente. Mas, a cada hora que se aproximava da meia-noite, estava ficando mais difícil dividir com ele os cômodos daquela casa cheia de pessoas. Acho que até a cidade estava ficando pequena pro desejo visceral cada vez mais gritante. Meu sangue fervia, meu coração disparava com cada troca de olhares, com cada sorriso de malandro que ele fazia questão de me atiçar a cinco metros de distância. E eu sei que ele também estava perdendo as estribeiras com essa jogada perigosa. E se minha avó desconfiasse de algo? E se meu irmão caçula desse com a língua nos dentes?

E se… E se…

Enquanto eu me perdia nas minhas dúvidas, o tempo não parava. O relógio sincronizou meia-noite. Abraços calorosos. Sorrisos de esperança. Lágrimas nos olhos. Os fogos de artifício em algum lugar daquele bairro anunciavam que as coisas iriam ser bem diferentes dali em diante. Olhando pra dentro de mim, fiz baixinho, um desejo secreto. Era loucura, mas no fundo, desejei tê-lo, nem que fosse um minuto comigo. Abri os olhos, e no mesmo momento, achei ridículo desejar alguém que nunca me pertenceu, mas, uma voz em minha cabeça sussurrou em meu ouvido de forma sedutora. A voz me convidou, guiou meus pés, e conduziu meus passos. A voz da minha imaginação que já se confundia tanto com a dele. Sozinha, e agarrando um copo na mão, caminhei com passos desconfiados até a cozinha, até me deparar com o meu mais profundo desejo realizado. Eu e ele, finalmente, estávamos sozinhos.

 

Era 01 de janeiro de 2016. 0h, 10 minutos e 23 segundos. Ele ainda não tinha percebido minha presença. Por sorte, ele ainda estava de costas, se não se assustaria com o tanto que meu corpo tremeu, o tanto que eu apertei aquele copo entre os dedos e respirei fundo pra fazer daquele encontro algo repentino e casual. Como eu já imaginava, ele se virou e eu, tentando parecer séria e contida, pedi licença para colocar o copo na pia – um pretexto, do meu subconsciente pra me aproximar cada vez mais daquele corpo. Tentando parecer mais séria ainda, tentei voltar para o lugar de onde eu tinha saído, mas fui impedida pela sua mão ligeira que me puxou pelo braço, de repente. Cena de filme. Nos olhamos assustados. Eu travei. Ele travou. Usando de um eufemismo, ele perguntou, sutilmente, se poderia me dar mais um abraço. A velha estória de “só mais um abraço”. Eu cedi. Entre um beijo no rosto e um abraço apertado, tentei fugir dali. Dava pra ver o fogo se alastrando dentro dos nossos olhos. Olhei pros lados. Tentei convencê-lo a colocar um pouco de juízo naquela cabeça. Ao ouvir passos, me desvinculei daqueles braços fortes. Alguém parecia estar chegando.

Vinte minutos depois, o nosso ímã voltou a nos atrair. Eu já não estava me controlando mais. Agora, nos encontramos num lugar mais deserto, mais escuro, mais propício. Fui atrás dele, de propósito, pois já sabia onde encontrá-lo. Parecia que ele só estava me esperando. Em poucos segundos, ficamos frente a frente de novo. Perto dos meus lábios, ele suplicou com o hálito quente um ‘por favor’. O cheiro evidente de álcool me fez duvidar se eu seria esquecida na manhã seguinte.  Meu rosto virou alguns centímetros e ele entendeu o recado. Ali era eu, ele, e o nosso primeiro beijo de muitos. Um beijo rápido e quente. Um beijo que se repetiu, de surpresa, quando voltamos a nos encontrar na cozinha e ele me puxou pelo braço de novo. Que se repetiu por três meses no mercado, na pracinha da cidade, nos meus sonhos… Um beijo que podia ter acontecido numa sexta-feira na saída da minha aula, não fosse o fato de eu ter voltado, três dias antes, pra minha cidade natal. Contra a minha vontade. Contra a vontade do meu coração.

Era 31 de dezembro de 2016: eu ainda me lembro de tudo.

Era 01 de janeiro  de 2017: eu ainda não o esqueci. Ele também não. É por isso, que ainda estamos juntos.

(Texto baseado em fatos reais)

Camila Barretto.