Vejo o Amor Próprio como um pai presente e carrasco, daqueles que são essenciais para o nosso amadurecimento, mas que não passam a mão pela cabeça. Aquele pai que, sempre que necessário, repreende em um tom firme e nos coloca de castigo quando teimamos em acreditar em certas ilusões da vida.

Assim, apesar de falar de amor, esse texto não é tão florido, e, muito menos, carrega a doçura de um sentimento bonito que compartilhamos mundo afora. Cada linha escrita aqui, trará o peso do sentimento mais sincero e recíproco que existe, o amor que diz respeito a nós mesmos e que nos faz pôr os pés no chão. É desse amor que ando precisando… — Essa semana não foi tão legal. Aquilo que já era para dar errado, acabou sucumbindo.

Curiosamente, escrever sobre esse tema, justo agora, foi uma grande coincidência do destino, tal como ser convidado a explicar sobre as taxas de desemprego logo após ser demitido, ou como ter que falar de recomeço no instante em que algo chega ao fim. Coincidência ou não, a verdade é que, contra todos os meus anseios, algo novo e bonito também precisou ter um ponto final na minha vida. E o fim, quando não é desejado, é sinônimo de tristeza. E lá vou eu, falar de Amor Próprio num momento tão delicado.

Sabe quando o que a gente mais quer é chegar em casa, e, antes de qualquer coisa, só pensa em fechar as cortinas e se afundar na cama debaixo de dez travesseiros? Ou quando tudo que a gente precisa é se trancar no banheiro e ficar no chuveiro vendo a maquiagem se derreter junto com as lágrimas? Sou um ser humano sensível, e como toda pessoa que se permite sentir, é isso o que eu desejei fazer nesses últimos dias. Contudo, apesar de tentador, acho que essa não é a melhor solução para a cura de um coração partido.

É, meu amigo… meu coração se partiu em vários pedaços há pouquíssimo tempo.  Esse paliativo de chorar sozinho pode valer a pena num breve momento, mas o sólido recomeço só é possível recuperando um velho sentimento esquecido. É aí que entra o tão deslembrado Amor Próprio, aquele que a gente deveria abraçar a cada dia, e não apenas procurá-lo nos momentos de fossa. Quem nunca soube disso? Mas esse amor te conhece tanto, que entende o motivo do seu sumiço. Por isso, ele sempre te espera.

Como qualquer pai presente, ele te vigia de longe, e sempre sabe que, mais dia ou menos dia, a gente acabará se perdendo nas fantasias das paixões, ou acreditando demais num amor que não valia à pena. Mesmo sendo por tanto tempo posto de lado, o Amor Próprio não é egocêntrico. Ele é o único que te fará levantar da cama, te dando a coragem de dizer para si mesmo: “você não está sozinho, você ainda tem o amor mais sincero do mundo”. Sabe, dentro de mim eu pude ouvir o seu chamado, o que tornou mais fácil achar o caminho de casa.

Agradeço ao meu Amor Próprio por ter me esperado na porta. Mas ele tem que saber que, uma parte do meu coração precisa de uns dias de luto. A outra parte, será reconstruída pela força dessas duas palavras, por esse amor que apenas me pertence.  Sei que um dia, tudo voltará a ser inteiro como antes. Mas, enquanto me desfaço das últimas lembranças, quero deitar no colo desse Amor Sincero, para que as lágrimas sequem e eu possa, enfim, sair do castigo por ter insistido em viver uma grande mentira.

Camila Barretto.

 — Desafio das Palavras (a versão dela)

Paulino x Camila Barretto

“Desafio das palavras” é um jogo proposto com o objetivo de versar sobre temas vindos de fora pra dentro; inspirar-se ao contrário. Dois poetas, cada um com seu olhar sobre o tema/título