Ele chegou no dia seguinte, posando de inocente, dizendo que tinha ido dormir no sofá. Me olhou como se eu tivesse total parcela de culpa daquele visível, e único, arranhão em suas costas. A verdade é que, para me defender, eu precisei atacar. Aquele arranhão com o cheiro do amor da noite passada foi dado em legítima defesa, numa autêntica vontade de me esquivar daqueles beijos que quase me privaram do ar.

Com a respiração ofegante, a visão turva e as pernas cambaleantes, vi em minha frente a morte do prazer se aproximando. Não havia muito tempo, nem espaço para me mexer. Eu estava presa pelo peso do seu corpo sobre o meu. Num êxtase quase que irracional, as únicas armas que eu tinha em mãos eram aquelas unhas vermelhas, que se cravaram exatamente na altura lombar inferior, fazendo escorrer, ao invés do sangue daquele ser dominador, um suor que fervia o seu corpo em brasa.

O sangue quente do momento não lhe fez perceber que ali, ele já não era mais tão soberano, mas, que virara o súdito de outra mulher que tinha no olhar a doçura de um anjo – e isso, era sem dúvida, um delito comprometedor. Horas depois, o sangue ardente foi resfriado pela água do seu chuveiro de casa, e o fez pressentir que tinha sido profundamente atingido pelas costas. Era tarde demais. O traidor considerou aquilo como uma grande traição. Mas vejam só a grande contestação do caso: diferente das cicatrizes profundas que ele deixou em minha vida, as marcas inocentes que eu deixei no corpo dele, logo vão passar.

Eis aí, a sutil diferença entre as marcas que deixamos entre a gente.

Camila Barretto.