Após um maremoto inundar nossos corpos de suor e prazer, nos deitamos entrelaçados, sem nos importar com a fragilidade dos sentimentos expostos, com o caos que causamos pelo quarto, ou com o tempo que corre, injustamente rápido, do lado de fora. Querendo guardar os resquícios daquele momento, despejei beijos em sua pele salgada, causando nele, um calafrio, um sorriso ingênuo e um olhar, cada vez mais afetuoso. Eu não sabia que era possível afetá-lo dessa maneira tão profunda. 

— Você é lindo. — eu disse, de um jeito pateticamente derretido, e com a admiração de quem contempla o pôr do sol no mar paradisíaco de Cancun.

Seu olhar se encheu de ondas, e pareceu que ia desaguar em sua pele cor de areia. Mas ele gosta de blindar as emoções e finge não acreditar na própria beleza que carrega. Ele sabe disfarçar seu contentamento com um meio sorriso.

— É sério. Acredite em mim. — enfatizei, passando meus dedos através dos pelos do seu peito, até chegar às curvas sinuosas do seu abdômen.

 

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Ah, se ele soubesse o quanto é encantador. Se ele soubesse o quanto é irresistível. Mal sabe ele que não falo de encantamento físico. Longe disso. Ele é bonito por fora, é evidente, mas falo aqui de beleza de dentro. Aquela beleza que me fez apaixonar, mais e mais, a cada dia. Ali, entre nossos corpos nus, existe algo que transcende os prazeres recém expostos da carne. Existe um encontro de desvelos, um reencontro de vidas, quem sabe. Existe meu encanto por quem ele realmente se mostrou de verdade.

Ele tem um jeito lindo de sorrir com os lábios fechados. Mas é ele que me arranca os sorrisos mais espontâneos. Ele atrai qualquer olhar curioso nas ruas. Mas é o modo que ele me olha que me deixa atraída. Ele sabe que há “ouro” por debaixo da sua camisa, mas não há beleza que reluza se ele não agir de um jeito bonito. E, quando ele abraça meu corpo com força, afundando o seu rosto em minha roupa, que eu percebo que é no silêncio dos gestos que ele me diz mais.

É como se quisesse mergulhar, cada vez mais fundo, no que há por dentro de mim.

“Você é lindo”, eu sempre digo.

Mas, entre um elogio e outro, eu só queria que ele soubesse que a beleza agrada apenas aos olhos. E vai embora. Se modifica. Envelhece. E que é a doçura nos modos que encanta a alma. É sua doçura que fica, que permanece nas linhas de cada texto não escrito. Não fosse seu jeito tão doce, eu já teria partido. Teria arrumado minhas coisas e me lembraria, tão somente, daquele corpo esculpido e daqueles olhos tão raros. Mas a superfície de um corpo nunca é suficiente pra quem se entrega desse jeito. Afinal de contas, grandes navios não ancoram se não houver profundidade.

 

Camila Barretto.