Estava um clima pesado, um peso quase insustentável. A gente até que tentava impor, a todo custo, uma relação puramente amistosa entre nós, só para disfarçar um sentimento gritante que seguia em outra vertente. Entretanto, chegou um momento em que nem a distância conseguia nos apartar daquela situação.

O poder do pensamento nos unia, a reciprocidade foi tecendo entre nós um nó desatável. Era um fato doloroso descobrir que aquilo não dependia da nossa aceitação: ou a gente se permitia, de uma vez, silenciar aquilo que já estava ecoando pelos corredores, ou eu já via hora de nos redermos a um beijo tórrido na primeira esquina deserta que cruzasse o nosso caminho.

Só na troca de olhares, a gente soltava faíscas. O que tínhamos entre nossos corpos era um poderoso ímã, um tornado veloz levantando água salgada no meio do oceano. Um incêndio irrefreável a ponto de acontecer.  Naquele dia, o segui tomada pelo silêncio e pela convicção do nosso destino final. Dessa vez, eu não iria voltar atrás. No trajeto que perpassava um trânsito caótico, enquanto ele se desviava dos carros na tentativa de ganharmos alguns minutos a mais, parei para observar, de canto de olho, aquele belo perfil com a barba por fazer, e me convenci, naquele exato momento, de que ele era um dos homens que eu mais desejei loucamente nessa vida. Sim, o advérbio mais certo é esse: loucamente. Eu precisava daquele momento, como o ar para respirar, eu esperava enfim, longe de qualquer expectador, pela chance de olhá-lo nos olhos e dizer como aquilo fazia eu me sentir.

A sua ausência me deixava ofegante. Sua presença me atordoava. Nunca havia sentido essa abstinência por algo que nunca havia, sequer, experimentado e que, evitava com todas as forças racionais, experimentar.  O escuro do lado de fora favorecia a minha estratégia de admirá-lo sem ser notada. Ele parecia concentrado, mas, vez ou outra, me lançava um olhar letífero que quase fazia meu coração parar de bater. Eu precisava descobrir, enfim, aonde aquilo iria nos levar. A resposta parece que ele até já sabia. Só de sentir, de surpresa, o toque leve de suas mãos subindo pelas minhas coxas e de saborear, imediatamente, seu calor atravessando o tecido de minha calça jeans, eu também previ que os minutos seguintes ultrapassariam todos os nossos planos de agir com frieza. Ali dentro, já faziam quarenta graus. A calma que prometemos, há tempos, já não nos pertencia mais.

E aquela sensação não surgiu de uma hora pra outra. Foi crescendo a cada dia, a cada instante que se aproximava daquele encontro. Foi um suplício de ansiedade. Na semana anterior, meu corpo já se enchia de adrenalina, despejando de forma involuntária, descargas elétricas que faziam me contorcer por dentro. Não importava o lugar: na rua, no banho, na hora do almoço: meu estômago não parava de dançar em ritmo de tango, meu coração batia cada vez mais acelerado, e meus pensamentos viajavam ainda mais distantes, me tirando o resto de concentração e do juízo. Não me recordo se já tinha ficado assim, tão afetada, só de planejar passar alguns instantes, sozinha, com alguém. Eu acho que aquela foi a primeira vez que minha deusa feminina despertou assustada de seu sono brando, acordando com toda a sua fúria de mulher incontrolável. Eu não queria mais me controlar. E, para agravar aquela situação, eu estava inteiramente apaixonada por aquele homem. A mais trivial mistura entre o peso do desejo e a leveza de uma paixão.

O tempo passou, e o clima de outrora, ainda se fazia presente: era só ocorrer um encontro acidental nas escadas ou em algum sonho qualquer. Foi uma sensação que nos invadiu pela força natural e nos marcou por sua durabilidade. Vontade que se apresentou como a base para forjar outros sentimentos maiores e se mostrou tão resistente à frieza da distância e às intempéries do tempo. Mesmo no incêndio dos nossos corpos, ela não se liquefez. Simplesmente intenso, pesado feito uma bigorna. Um desejo de ferro forte e fundido que, para esquentar sua fina superfície polida, bastava apenas a faísca de um olhar.

É o que, de fato, ainda nos basta.

Camila Barretto.

— Desafio das Palavras (a versão dela)

Paulino x Camila Barretto

“Desafio das palavras” é um jogo proposto com o objetivo de versar sobre temas vindos de fora pra dentro; inspirar-se ao contrário. Dois poetas, cada um com seu olhar sobre o tema/título