Terminar o que não teve início é complicado, romper os sentimentos também, mas já imaginou ter que lidar com a incerteza do outro de querer e não querer, simultaneamente? É intensamente pior. Não existe ritual a ser seguido, não repassaram a fórmula no ensino da escola, não encontrei a receita pronta, nem manuais de instruções que venham sanar esse comportamento alterado e mesquinho. 

Me vem à cabeça que a atitude de ir e vir com livre acesso, no ambiente particular, advém da noção que tens sobre o meu gostar. “Ela gosta muito, por isso domino e defino como estaremos nos próximos dias, tenho autocontrole na relação. Isso me deixa seguro.”

Não há o que discutir: fidedignamente a afeição envolvida me deixa vulnerável como uma criança malcriada a berrar por um colo, — e exigente –, só serve se for o seu. O que pensas ao meu respeito é óbvio até para quem escuta a nossa história pela primeira vez, mas respiro fundo na tentativa de reverter os fatos e falo internamente: “a vida toda fui decidida e agora, me encontro inundada por sua hesitação. Preciso ser firme! Vou ficar quieta, na minha. Não quero mais te querer!”

Eu daria tudo para ser a razão das minhas palavras, pena que sou uma casa que abriga somente as emoções. Você invade os meus conceitos mais secretos e consegue ser ágil, antecipando a minha mudança de ideia; reaparece, em uma mensagem, como quem não quer nada:

— Hoje trilhei um percurso que me fez lembrar você. — disse, descaradamente.

Ora, ora, fiquei feliz por ser lembrada, mas imensamente triste por ser apenas uma fração de memória, enquanto você ocupava a minha reminiscência constante. Respondi a mensagem educadamente, mas o corriqueiro aconteceu, o retorno que tive foi muito prático: nada foi dito e tudo foi entendido: o silêncio é a pior resposta.

Todas às vezes te respondia com atenção e de forma positiva, então entendia que tudo fluía como antes: a minha vida continuava a ser governada pela sua. Sendo assim, estava tudo ótimo. Essa conclusão objetiva lhe bastava por inteiro para nutrir o seu ego e me deixar novamente em pedaços. Por mais que esteja convicta em desistir e me esforçar para te evitar, sei que não me deixará em definitivo, pois é confortável ter alguém que guarde um lugar para gente. Perder esse lugar é como perder o trono, é fazer show sem plateia, é abandonar os holofotes, é ter um fim triste quando o intuito seria um final feliz.

A disparidade em relação a nós dois nos desenha em traços gerais. Em uma escala de oscilação, estou entre o seu anseio ardente em me ter e o desprezo ao notar que no meu coração ainda é sua morada. Essa cena já se repetiu tanto, que me sinto cansada. Cansada de acreditar que tem uma chance de dar certo (mesmo que seja a última), de ser passatempo em suas mãos, de ser sempre dominada, logo eu que nasci para dominar. Definitivamente, CAN-SA-DA!

Fico indagando em tempo demasiado:

“Até quando durará essa disputa acirrada, na qual só quem compete é você?”

Já perdi, desde o início, quando me entreguei. Pare de me fazer refém, por favor! A única coisa que quero é me livrar desse cativeiro. Baixe as armas, entrego os meus pontos e decreto a sentença: o mérito dessa guerra pertence à você.

Sou um ser indefeso que caiu em suas artimanhas e que cede na alternância dos seus impulsos desejosos. Quero ser descrente de suas promessas, que diz ser diferente, mas nunca é. Bipolar é a sua vontade louca de me possuir, e segundos após me destruir. Afinal, o que queres de mim?

 

Giulia Christy (escritor parceiro)

“Este texto faz parte da 2ª edição do Desafio das Palavras (Camila Barretto x Giulia Christy) – um jogo proposto com o objetivo de versar sobre temas vindos de fora pra dentro; inspirar-se ao contrário. Duas escritoras, cada uma com seu olhar sobre o tema/título.”