O que mais me irrita é que ainda não consegui te decifrar. Você não é daqueles fáceis de entender, que, num piscar de olhos, nos deixa perceber o que quer da vida. E eu só fui percebendo isso com o tempo, após o sinal do seu primeiro descaso. 

Você conquista e some. Você é daqueles que, fala ao pé do ouvido, com uma voz rouca e lasciva, que tudo está errado, dando a entender que é exatamente o contrário. Você confunde: me obriga a te deixar ir embora, e depois, por conta própria, volta, bate na minha porta, e ainda me pede uma xícara de café. Senta, seduz com seu olhar terrível, e vai embora calado.

Enquanto isso, me distraio pegando um pouco de açúcar, e quando volto, não vejo mais você. Sumiu. Partiu. Acho que é disso que você gosta: café amargo. Tempos atrás, você me disse, com um ar de monge conselheiro, que, antes de tudo, eu precisava me conhecer melhor. Naquele dia, meu orgulho tomou isso como afronta, mas no final da conversa, você me convenceu de que, talvez, pudesse ter uma ponta de razão.

Fiz o que você disse. Deixei você ir. Me recolhi na minha significância e sofri sozinha a dor de um adeus nunca realmente dado. Mas aí, você invade novamente minha casa, solta um elogio indigesto (mas loucamente ansiado), me deixando a um passo de lhe dizer que a necessidade de se autoconhecer, é imperiosa, justamente, a você. Você é arbitrário.

Injusto foi o que você fez comigo. Eu já estava me recuperando. Você sabe quanto tempo demorei em pegar no sono? Desnecessário seu elogio incabível, seu carinho limitado, seu desejo por minha companhia, já que tão logo iria dispensá-la – em silêncio. E o que é que eu tenho vontade de fazer agora? Gritar boas verdades, reverberando minha indignação no silêncio que você se esconde.

Como disse, acho que é disso que você gosta: café amargo.

Camila Barretto.