Cada vez que eu te vejo, eu me derreto. Eu cedo aos seus abraços apertados e carregados de intimidade. Eu rio das suas piadas de moleque criado na rua, eu viro um menino. Cada vez que eu te vejo, eu sei que pareço contente demais aos olhos de quem passa, quase uma euforia de um jovem embriagado. Esse é meu problema. Eu fico boba de tanta alegria, eu troco os passos.

Mas quando você vai embora, o meu rosto risonho se reveste em decepção. Sozinha, me decepciono comigo mesma por ainda achar tanta graça na gente. Eu me decepciono com você e esse seu jeito estranho de me dizer, calado, que é melhor a gente não se ver mais. Você e seu jeito único de me dizer não, mas não largar da minha mão. Jeito de me amar em silêncio, mas não deixar ser amado.

A gente se beija. A gente se deseja. Mas você me diz não, cada vez que promete que vai ligar e não me liga. Cada vez que fala que sente minha falta, mas não vem matar a minha saudade. Você me nega de um jeito implícito, sempre que me olha com os olhos brilhando, mas depois os desvia, escondendo o seu coração. No fim, você cozinha em banho-maria o nosso desejo, o qual deveria estar fervilhando dentro de um quarto, feito uma panela de pressão.

Seu “não”, na verdade, nunca foi dito. Ele desconhece qualquer forma de verbalização. Ele está subentendido no seu vai e volta, acorrentado em suas mensagens nunca enviadas, embutido na sua indecisão. Seu “não” é um “sim” pela metade: é quando a mãe não deixa ir, mas manda a criança perguntar pro pai. Um casal que não se decide. E é muito fácil saber quem sou eu nessa brincadeira.

Eu sou a criança de olhos carentes, que insiste nessa metade que ainda posso ter um dia.  Eu sou uma criança em sua mão.

Camila Barretto.

— Desafio das Palavras (a versão dela)

Paulino x Camila Barretto

“Desafio das palavras” é um jogo proposto com o objetivo de versar sobre temas vindos de fora pra dentro; inspirar-se ao contrário. Dois poetas, cada um com seu olhar sobre o tema/título