“Aprenda a não precisar de ninguém”,
“Melhor ser surpreendido do que ser decepcionado”,
“Crie poucas expectativas e espere menos das pessoas.”

Essas frases que circulam diariamente nos feeds de notícia e atualizações de status me dão medo e até certa aflição. Essas frases que são repetidas constantemente pela geração do “tanto faz”, são representadas com frieza, dia após dia, nos palcos da vida e dos relacionamentos interpessoais. É claro que seguindo à risca a receita que essas frases propõem, as pessoas tendem a se decepcionar muito menos. Mas isso, paradoxalmente e por si só, já é decepcionante.

As pessoas buscam lidar com a frustração com o discurso de que não precisam de ninguém, mesmo sabendo que é árdua a ideia de conseguir viver no mundo sozinho. Criam uma carapaça de indiferença para se defender das mágoas que, fatalmente, estão por vir, e acabam por repelir, consequentemente, aquilo de bom que se aproxima. Não existem freios e filtros para selecionar aquilo ou aquele que ainda merece nossa credibilidade. As pessoas, cansadas de se frustrarem em sua jornada, comportam-se defensivamente, se fecham na solidão, esperam sempre por menos e preferem viver de surpresas do que de realizações. Surpresas são ótimas, mas muitos acham que é melhor não criar expectativas para evitar uma frustração.

Contudo, será que isso realmente vale a pena? Se alguém me perguntasse isso um dia, eu diria que não.

Sabe-se que o sentimento de expectativa só pode existir na ausência da realidade, ou seja, quando o objeto que motiva tal sentimento ainda não se tornou viável e real, sendo apenas, uma condição presente no desejo de cada indivíduo. Talvez seja aí que more o perigo, já que, é na ausência da realidade que também nascem as famigeradas utopias. A diferença basilar, entretanto, é que, para que possa existir a expectativa é necessário que haja a previsão, informação ou condição que sustente esta esperança, caso contrário a chamada “expectativa” não passaria de uma mera “ilusão”. Talvez esteja existindo uma certa confusão no uso e entendimento desses termos. É o que acredito.

Então, se você, assim como eu, ainda acha válido alimentar expectativas saudáveis, o que devemos nos perguntar, diariamente, é o seguinte: minhas expectativas têm alguma condição que sustente sua real aplicabilidade? Ou será que ando fantasiando demais? Isso deve ser um exercício diário de reflexão.

Aproveito para dar dois exemplos clássicos sobre este tema, e que, de fato, carregam um pouco da minha bagagem e experiências de vida. 1) Já ouvi dizer que era melhor eu fazer uma prova sem criar expectativas em ser aprovada. 2) Já me apaixonei por uma pessoa, e fui aconselhada por uma amiga que era melhor não me apegar para não ter minhas expectativas quebradas.

Confesso que, por diversas vezes, me senti tentada a agir assim, mas, felizmente, descobri que essas atitudes não combinam com meu jeito intenso de enxergar a vida. E então, nesses dois casos, como foi que eu agi? Eu simplesmente acreditei em mim. Fiz a prova, convicta do meu empenho e esperando o melhor resultado, e me entreguei àquele relacionamento de corpo e alma, mesmo sabendo que todos os meus planos, sonhos e desejos corriam o risco de não serem concretizados. Faz parte. O fato é que encontrei a plenitude só de me permitir confiar no meu esforço e potencial, bem como, só por viver intensamente uma paixão. Sorte minha que fui aprovada na prova e que, nesse caso, minha paixão também foi correspondida.

Mas e se desse tudo errado? E se eu descobrisse, de um jeito amargo, que minhas expectativas não seriam atendidas? Iria me decepcionar? É, óbvio que sim! Já aconteceu comigo outras dezenas de vezes e tenho certeza que ainda vai acontecer. A diferença, no entanto, está no tempo que eu levo para me recuperar dessa decepção. A diferença está em como consigo administrar minha dor e transformá-la em algum aprendizado.

O que quero dizer com isso é que nunca considerei as expectativas como algo ruim ou perigoso. Pra mim, ruim é colocar no outro a total responsabilidade pela nossa felicidade. Perigoso é achar que as expectativas depositadas em uma relação afetiva, por exemplo, nos dá o direito de controlar a vontade e as ações de outro. Assim, já dizia o Kau Mascarenhas: “posso falar ao outro como eu me sinto em relação ao que ele faz ou diz, mas não tenho o poder de controlar o que ele fala ou diz.” Mas isso não significa que devemos nos privar de sentir e nos doar, entende?

Por isso, quero continuar tendo o direito de sonhar e esperar algo positivo daquilo que acredito, sem que isso seja considerado um ponto fraco ou uma porta aberta pra uma frustração. Quero depositar minha confiança em quem se mostra merecedor, mesmo que depois, a pessoa cometa erros e que, eventualmente, me decepcione. E sim… Quero tratar as pessoas com o mesmo carinho que eu gostaria de ser tratada, o que é diferente de tratar alguém de um jeito diferenciado esperando alguma recompensa.

Eu não quero evitar as expectativas pra me sentir por cima. Não quero fugir delas com a intenção de me tornar mais forte. Pelo contrário: quero me sentir forte pelo simples fato de defendê-las e, ainda assim, conseguir compreender que as coisas não dependem, exclusivamente, da minha vontade. Aliás, ter essa compreensão não nos impede de ter perspectivas e desejos sobre algo ou alguém. Quero compreender que minha fé não é certeza de um milagre. O que desejo, antes de tudo, é aprender a lidar de forma madura com as minhas decepções. Isso pra mim é o mais importante.

Afinal, lembra o que são expectativas? Elas são o estado ou qualidade de esperar que algo ou alguma coisa viável ou provável aconteça. Assim, ter expectativas, como muitos pensam, não é ansiar pelo impossível, mas ensaiar possibilidades. E, ao meu ver, não há nada de errado nisso. Triste pra mim, é se blindar a ponto de não esperar nada de ninguém, – nem de si mesmo. Triste mesmo é viver num mundo onde todas as pessoas estão fechadas em uma bolha fria e intransponível de autoproteção porque têm medo de sofrer com outra decepção.

Por isso,  deixe-me sonhar – com os pés no chão.  Quero ter expectativas pra ter a chance de senti-las correspondidas, ou até mesmo, de ter o prazer em superá-las. Quero me permitir amar, acreditar, confiar e desejar o melhor das coisas sempre, e, entre erros e acertos, espero aprender a delicada diferença entre alimentar expectativas e acreditar em falsas ilusões.

Camila Barretto.