Hoje, de um jeito diferente, quero matar um inocente desejo. Deita em meu colo, se aninha em minhas pernas, fica quietinho. Relaxa seu corpo, sua mente, seu coração. Fecha os olhos. Esqueça o barulho da vida lá fora, e permita, aos poucos, a chegada do nosso silêncio. Deixa eu ter a sensação, mesmo que efêmera, de que você me pertence por inteiro. Quero apreciar a vista daqui do alto, guardar essa imagem bonita na lembrança, fazer desse momento o meu cartão-postal. Quero, agora, transformar os meus olhos num mirante.

Deixa eu te dar cafuné, aconchego, carinho.

Realiza meu anseio de te ter nos meus braços. Recebe minhas carícias sem pressa, meus beijos sem culpa. Quero passar as pontas dos dedos em sua barba mal feita, decorar os moldes do seu rosto esculpido por Deus. Deixa eu passear pelos vales e curvas da sua pele, pelos fios do seu cabelo bagunçado. Quero memorizar o cheiro natural do seu corpo, o tom exato dos seus olhos bonitos e tudo aquilo que me fez me encantar por você um dia.

Sabe, a gente, muitas vezes, se afasta de quem gosta por não ter certeza daquilo que o outro sente. A paixão, em sua forma deliciosamente conturbada, nos rouba o sossego e nos deixa confusos. Ela bagunça as certezas, nos faz ver estrelas e nos põe pra pensar que tudo que precisamos é de mais um beijo caliente. Você sabe que não é bem assim e que, eventualmente, um abraço macio também nos cai bem.

Por isso, vem. Deita em meu colo, sem medo. Quero te dar algo que ultrapassa a voracidade da nossa luxúria, que preenche, com cuidado, cada pedacinho vazio que fica toda vez que a gente não tá junto. Permita que eu desperte em seu íntimo a sensação gostosa de se sentir, verdadeiramente, desejado. Mas esse não é um desejo de corpo, e sim, de alma. E carinho, meu menino, na verdade, é isso. É no fundo, um desejo inocente que acalma.

Camila Barretto.