Sempre que eu quero escrever um texto sobre o Amor, eu penso em você. E, incrivelmente, os textos que eu considero mais bonitos, foram aqueles que eu não apenas pensei, mas escrevi na intenção de te mostrar. Sempre que posso, fecho os olhos e me imagino te falando cada confissão que está prestes a desaguar no papel. Ao te conceber em minha frente, um turbilhão de sensações me atinge e as frases certas vêm. Às vezes, elas deslizam da minha mente feito plumas. Às vezes, disparam frenéticas, como metralhadoras ansiosas por uma melhor tradução.

É inegável que a profundidade do que escrevo fica ainda mais perceptível quando incentivada pela possibilidade exclusiva de te contar aquilo que eu sinto. Como filhos bem criados, amo os textos que faço, pois cada um esboça um trejeito, um defeito, ou uma qualidade que me pertence. Contudo, os que são reflexo da nossa história, certamente, tenho um carinho que não conto pra ninguém.

Por favor, nunca revele esse segredo.

Escrever sobre o Amor e não pensar em você é como não ter argumentos plausíveis para uma séria discussão. É como construir uma casa sem telhado: falta o imprescindível. É comida sem sal, café frio, fé sem devoção. Escrever sobre o Amor e não cogitar, ao menos, te mostrar um dia, é como amassar palavras e arremessá-las no lixo. É desperdício de oratória, falta de assunto, desatino. É como escrever um livro com tanto afinco e não ter quem o leia com a merecida dedicação.

E a minha melhor sorte, é ter você como leitor.

Eu posso até te perder pra o infortúnio da vida e para as mazelas do destino. Eu posso te perder das mais trágicas maneiras possíveis. Mas a maior desventura que pode me acontecer é não te achar dentre as minhas próprias lembranças. É me esbarrar contigo na rua, daqui há cinquenta anos, e nem lembrar mais do seu nome. Ou pior, confundi-lo com o de outra pessoa. Serei desventurada se, acometida por alguma doença do tempo, eu perder pra sempre, a história que construímos.

Por isso, eu te escrevo em todas as linhas vazias. Escrevo pra preservar intactos, os nossos momentos vividos. Para despertar os neurônios dispersos. Pra te fazer imortal em mim mesma. Escrevo mesmo que me diga que é impossível esquecermos um do outro. Porque a maior desventura de um escritor sem sorte não é ter falhado na busca do sucesso; é ter escrito tanto sobre o Amor, mas esquecer-se, fatalmente, de quem mais se amou – ou inspirou – sua vida.

 

(No meu caso: você).

 

 

 

Camila Barretto.