Depois do seu último beijo capaz de me arrancar um suspiro deslumbrado, e, ao mesmo tempo, carregado de decepção, só tive forças para te olhar perplexa. Nossas promessas de amizade eterna foram quebradas, apenas com esse contato íntimo sem qualquer anuência da minha parte. Estávamos indo tão bem, o que será que aconteceu? Uma parte de mim foi pega de surpresa por não esperar aquela sua decisão tão espontânea, enquanto outra se decepcionou amargamente por já saber que aquele poderia ser o nosso último beijo.

Poderia ser você me dizendo: eu amo seus beijos, mas preciso te dizer adeus.

As palavras, por breves instantes, fugiram da minha boca ainda entorpecida pelo toque dos seus lábios ligeiros. Com a cabeça confusa, por não entender o significado daquele beijo roubado, perguntei se você estava ficando louco, afinal, você só estava piorando as coisas entre a gente. Tão confuso quanto eu, mas compreendendo as consequências daquele erro cometido, você resolveu sumir da minha vista, às pressas, como se aquela velocidade fosse capaz de apagar os vestígios dos últimos sessenta segundos vividos; como se fosse capaz de me deixar no seu passado pra sempre. Era isso, infelizmente, o que você queria.

Feito uma sombra solitária, saí atrás de você, mendigando alguma explicação. Você, andando anos luz à minha frente, sem considerar minha dificuldade em me equilibrar no salto alto e em minhas próprias decisões, ignorou qualquer direito pertencente a mim de entender o que seria da gente. Na verdade, a gente nunca sabia mesmo o que dizer. Cada novo encontro era uma esperança de sairmos ilesos, e cada despedida era um novo jeito dolorido de aprender a dizer não. Sempre saímos mais machucados do que da última vez. Tal como você, eu já estava ficando exausta daquela oscilação de sentimentos.

Assim, após a surpresa, o deslumbre e a súbita raiva que senti pelo roubo de um beijo inocente, meu sentimento, naquele momento, era de pura consternação. Consternação por dois corações que estavam se dilacerando de novo e de novo. Eu queria te dar um abraço e dizer que tudo ficaria bem, eu queria pedir desculpas pelo fato de você sempre agir imaturamente, mas eu só consegui te dizer, do meu jeito silencioso, que eu ainda gostava tanto de você. Já você, com o olhar arrependido de sempre, preferiu repetir em voz alta aquela frase que eu havia te dito há alguns meses: é melhor a gente parar por aqui.

Pois é. Talvez seja melhor assim.

Camila Barretto.