Oi, a quanto tempo não te vejo, hein?

Eu nem acredito que vou te dizer isso, mas enquanto você passou um tempo longe, eu estive muito bem, obrigada. Isso não significa que eu não me lembrei de você em alguns instantes. Porém, vez ou outra, enquanto você passeava em minha mente, meu coração permaneceu protegido, intacto, feito ilha deserta. É incrível poder dizer, enfim, que a saudade não privou meu sono, que a lembrança não me trouxe inspiração e que as batidas do meu peito foram, pouco a pouco, desacelerando.

Algo inédito, estranho e meio louco aconteceu na sua ausência. Mas, devo admitir, foi um alívio e tanto pra um ano tão conturbado.

Nesses últimos dias, continuei levando a vida sem você, em um silêncio revigorante e de um jeito surpreendentemente livre. Na sua ausência, me espantei ao não sentir mais dor, nem ânsia por mais um encontro, nem expectativa por uma nova mensagem. Em seu lugar, só ficou um oco, um querer morno, um sussurro. Você fez uma falta sutil, tenho que confessar. Mas, de repente, a sua falta me trouxe sossego. E eu tava precisando disso, sabe?

Enquanto você esteve ausente, deixei minhas vontades adormecidas, e silenciei qualquer ruído que pudesse acordá-las. Evitei seu nome e as roupas com seu cheiro. Andei na ponta dos pés, trancafiei os meus disfarces e recusei visitas inesperadas. Eu lavei as roupas sujas e dispensei tudo que não dissesse respeito a mim mesma e à minha calma restabelecida. Eu fui minha melhor companhia, e, sinceramente, me senti tão leve como há tempos não me sentia.

Pela primeira vez em tanto tempo, passei algumas semanas em paz. Meu coração tirou férias da gente. A menina carente deu uma trégua de mim. A minha louca paixão pegou o primeiro avião e ficou num lugar distante, meditando, relaxando com as pernas pra cima, e despreocupada com sua próxima ligação. Simplesmente, minha paixão não está ligando pra nada, e eu, por tabela, também não. É a primeira vez, desde que te conheci, que eu me sinto dona da minha própria razão.

Enquanto você esteve ausente, eu segui em frente;

Eu abri as cortinas, pus a casa em ordem e deixei, finalmente, você sair pra poder a luz entrar. Enquanto você passou um tempo longe, eu estive muito bem, obrigada.

 

— Camila Barretto.