Como diz a sábia música que invade meu pensamento: “escrevo pra me livrar do tempo, do pouco, do medo, do mesmo e do que nunca me esqueço (…) escrevo pra suportar teu silêncio”.
Se escrever é para os fortes, revelar aquilo que se escreve é para os deuses da imortalidade. Revelar um segredo não é fácil, imagina compartilhá-lo, de modo tão cru e explícito, em forma de palavras escritas? Gera susto, medo, quando não, uma apatia lamentável. Tudo piora quando a escrita vem carregada de sentimentos selvagens, daqueles que não estão domesticados, e que, se ditos, parecem mais gritos, e acabam afugentando quem a gente mais queria por perto.
Mas escrever é isto. É ganhar e doar a plena liberdade de interpretação. É dar livre acesso para alguém ler, julgar, e reler novamente daqui a sete anos. Na escrita, tudo fica mais intenso, mais caótico, mais dolorido. Se escrever, muitas vezes, nos assusta, imagina a quem está lendo? Pior ainda, se este alguém é o nosso alvo-crítico. A gente acaba atingindo o alvo em cheio, no meio, matando com isso, qualquer esperança de nos fazer parecer sóbrios e equilibrados.
Na verdade, ninguém é o Rei do próprio equilíbrio, mas só quem escreve é posto na famigerada vitrine dos fragilizados. Pobre louco… Já aconteceu comigo, e a primeira vez foi quando escrevi uma carta, aos onze anos. Uma carta de uma menina apaixonada. Fui dolorosamente rejeitada, mas, nem por isso, ganhei um trauma. Ao contrário, ganhei, depois de vários anos, um beijo e a coragem para continuar escrevendo.
A partir desse dia, descobri os doces efeitos paradigmáticos dessa força de expressão; a escrita, ao mesmo tempo em que nos deixa mais fortes e corajosos, nos imobiliza e desmascara. Nos vira ao avesso e nos mostra, justamente, como somos. Todos nós somos loucos, mas só alguns se deixam mostrar.
Para escrever, por fim, não basta ter coragem de expor o que nos vem à mente, pois, de fato, a escrita é uma exposição para além do racional, algo que tece as emoções de uma alma. É como tatuar um “eu te amo” na testa, e não poder mais voltar atrás. E não adianta laser, desculpas ou lamentos. A cicatriz de quem escreve sempre estará lá pra te mostrar quem realmente você ousou amar.

Camila Barretto.