Toda vez é assim. A gente se despede com um beijo no rosto e meu sorriso amargo já denuncia o meu mal estar. Me sinto mal por ter exagerado na dose. Me sinto mal por ter me embriagado. Chego em casa cheirando à Invictus, com a camisa escandalosamente amarrotada e com seu gosto entranhado nas camadas mais profundas da minha pele. Seus vestígios se escondem em minha roupa íntima, nos vãos escuros das minhas curvas, e em cada parte do meu peito estilhaçado. O nosso amor é substância inflamável. Queima. Explode por dentro. E, de repente, tudo o que tenho é meu coração em cacos e fragmentos de você por todo canto: nos nós do meu cabelo úmido, nas marcas ocultas das suas mordidas e nas minhas pernas, ainda bambas. Me sinto fraca. Embriagada, mais uma vez, por seu amor.

Mas quer saber? Mesmo assim, eu não me arrependo.

Preciso de um banho morno pra me recompor, mas postergo o contato com a água. Não quero que ela te lave do meu corpo tão cedo. Não ainda. Não sem antes, eu me encarar completamente nua, de frente pro espelho, e de desejar você atrás de mim, segurando firme minha cintura. Não sem antes, me debruçar na pia e te imaginar beijando minhas costas vulneráveis. Não sem antes, eu fechar os olhos um minuto e me sentir confusa o suficiente pra repetir seu nome, entre praguejos e suspiros ofegantes. Maldito seja o seu amor que é tão gostoso! Porque você é tão gostoso desse jeito?

Não sinto arrependimento por ter matado a minha sede mais cedo. Eu quis e ainda quero sua língua quente na minha nuca, eu quis e vou sempre querer o seu desejo puro e sem gelo. E, apesar de saber que minha ressaca vai durar muito mais que um dia, mais eu te ponho na minha boca e te engulo. Eu gosto tanto de sentir o seu gosto, que, por um instante, finjo me esquecer dessa ânsia de querer te pôr pra fora. A ressaca é desprezada em segundos, basta superar a sensação de coração embrulhado e da dependência emocional que me invade nas madrugadas mais vazias.

Eu, por algum motivo, ignoro o completo desconforto que enfrento. Ignoro só pra ter em mim mais um pouco da sua presença e do seu perfume importado. Minha saudade é minha penitência e meu silêncio, minha melhor oração. Eu peço pra te esquecer de joelhos. Mas não há prece ou promessa que me salve do tormento que é sua partida. Da tormenta que é minha saudade. E da abstinência controvérsia que eu sinto, até mesmo quando estamos juntos. Não sinto remorso por meus pecados, se for pecado dividir meus sentimentos contigo. Deve ser por isso que minhas orações não são atendidas. Deve ser porque, simplesmente,

eu não consigo me
arrepender.
de você.

 

Camila Barretto.