— Eu não quero te ter de forma exclusiva. Eu só preciso, de alguma forma, ter você. – sussurrei pra ele, enquanto procurávamos um lugar vazio pra sentar. Meu olhar trepidava em chamas.

Com um sorriso contido, a pele levemente arrepiada, ele me olhou nos olhos, tentando, acima de tudo, se manter no controle da situação.

— É sério. Prometo que não vou te cobrar nada. – insisti, jogando na mesa, a última carta suja do baralho. É claro que eu estava blefando, não por maldade, mas porque, lá no fundo, eu já sabia que o meu jeito de gostar não suportaria viver sem “exclusividade” por muito tempo. Mas, aquela era a minha última cartada. Eu não queria perdê-lo. De repente, vi passar pelo semblante dele um filme triste do seu passado, onde quem sabe, uma outra mulher apaixonada, ousou fazer a mesma promessa vazia que eu.

Ele, calmamente, rebateu: — Não faça promessas que você não pode cumprir. Eu já passei por isso. As cobranças sempre virão.

Essa foi, mais ou menos, a conversa que nós tivemos há seis meses atrás, quando, eu tive a brilhante ideia de dizer pra ele que eu saberia conviver com o fato de não pertencermos, tão somente, um ao outro. Me sentindo a Mulher Maravilha dos Relacionamentos Sem Compromisso, eu disse a ele que saberia me virar muito bem nesse evoluído mundo do desprendimento, até ele me tirar da Terra dos Sonhos, e dizer, com a voz de um sábio homem experiente, que, inevitavelmente, alguma hora, as exigências viriam à tona.

No dia, não quis dar o braço a torcer, mas sim… Lamentavelmente, ele estava certo.

Naquela época, em que eu estava transbordando de tanto desejo, eu fui capaz de me oferecer de bandeja, mesmo que implicitamente, como uma segunda ou terceira opção. Eu, feito louca, me contentei com uma brecha em sua agenda, com qualquer pausa para o lanche, com qualquer meia hora de deleite sem nenhuma obrigação. Eu estava tão apaixonada, que acreditei que as migalhas seriam capazes de alimentar meu faminto coração, e esqueci que minha alma, mais cedo ou mais tarde, adoeceria ao lidar com tantos restos que nunca se acostumou a receber. Ele, por outro lado, achou que aquilo era mais que suficiente.

Não foi por falta de aviso ou de amor próprio, mas sim, pela triste ilusão de achar que, as coisas entre nós, poderiam se ajeitar com o tempo. Que, romanticamente, as migalhas dos nossos encontros se tornariam, um dia, um banquete de amor verdadeiro. Tudo o que eu queria era provar, entre uma loucura e outra, que eu tinha algo mais profundo a oferecer. Eu me agarrei a qualquer chance, no intuito de revelar quais eram as minhas verdadeiras intenções. Mas, já deu. Hoje eu reconheço que eu me maltratei por tempo demais, só porque queria compartilhar, a todo custo, um sentimento que já não cabia em meu peito. Hoje eu vejo que, num desespero cego da paixão, eu preferi me arriscar numa promessa inconsequente, a perder a oportunidade efêmera de estarmos juntos.

Eu dei tempo ao tempo e, de todo modo, não me arrependo de ter tentado um final feliz. Mas aí, o tempo passa e a gente se cansa de se privar das nossas verdadeiras convicções. Cansa de interpretar um papel que não combina com a gente. O tempo passa, e a gente percebe que a felicidade não chega, a gente se cansa de esconder a evidente vontade de ser a única, e, não mais, a milésima oitava opção. As consequências finais acabam não valendo a pena.

Doeu demais quando eu  percebi, numa dessas breves despedidas, que eu estava terrivelmente sozinha. Caiu a ficha quando, num desses domingos de chuva, eu tive uma vontade tamanha de mandar mensagem e cobrar mais carinho e atenção.Foi aí que, imediatamente, eu me lembrei da indigna promessa que eu fiz no calor da emoção. Eu me calei, e tive que engolir sozinha a minha dor e a minha decepção.

Eu não podia cobrar nada dele, afinal.

Sabe, confesso que eu continuo sendo a mulher loucamente apaixonada, mas agora, deixei de ser tão maluca. E, apesar da minha promessa ainda continuar de pé, agora eu me sinto totalmente sem chão. Por isso, se eu não posso cobrar mais do que ele pode me oferecer, eu preciso dizer que assim já não dá pra ficar. Não dá mais pra fingir que está tudo bem. Hoje, eu enxergo que meu maior erro foi achar que os trinta minutos de “amor” que ele, esporadicamente, me daria, compensariam o infinito vazio que, a cada partida, eu submeteria o meu coração.

O infinito vazio de uma promessa que fiz, pelo medo de me sentir sozinha, mas que, no final das contas, de nada adiantou. A propósito, foi assim que eu me senti na maior parte do tempo.

Camila Barretto.