“Na guerra, mata-se quem não se odeia, pra defender quem não se ama” (Julios D’Gales)

 Olhar receoso, feridas abertas, semblante cansado. Sou mais um soldado sobrevivente que está em busca da superação. Depois de tantas semanas sem novos ataques, eu realmente achei que tinha vencido mais um confronto, mas, pelo visto, eu estava completamente enganada. Aqueles dias de trégua e silêncio duvidoso foram só uma brecha que ele precisava para recarregar suas investidas. As chamas em mim já haviam sido controladas, mas ainda se via muito sinal de fumaça.

E onde há fumaça… Há um fogo que não se esquece e não se apaga.

Quando, naquela tarde pacata, recebi uma mensagem codificada com ideogramas de saudade, senti meu rosto queimar como antes, e percebi que, dali em diante, eu ainda iria apaziguar muitos incêndios repentinos. Imediatamente, fiquei em posição de alerta e me protegi para lutar contra o imprevisível. Em vão. Desde sempre foi assim: a cada novo chamado surpresa, era como se eu recebesse uma carta convocatória para uma grande missão hercúlea. Missão de controlar o caos que se estabeleceu dentro de mim. Guerra que se fez entre o mar da mente e o tão disputado território do meu coração.

Com exceção dos turistas corajosos que persistem em se aproximar do meu interior frequentemente bombardeado, quase ninguém faz ideia do que se passa por dentro das fronteiras da minha pele. Quem se aproxima achando que vai encontrar em mim a eterna tranquilidade de uma praia deserta nas Bahamas, aos poucos, se surpreende e percebe que estou mais para a Turquia: bonita e cheia de histórias, mas, ultimamente, um tanto perigosa de se visitar. Mas isso é quase um paradoxo. Sinto que estou em plena guerra, mas, com frequência, me vejo fora do campo de batalha, – talvez por impotência, talvez por mero cansaço.

Ao mesmo tempo em que meu exército bem intencionado luta contra um oponente chamado desejo, dois ou três soldados desertores, me amordaçam, fazendo-me sentir um objeto não-participativo, um ser inanimado que assiste a tudo por cima do muro. Um ser que, feito prisioneiro, obedece calado às vontades da oposição, apenas pela tórrida vontade de saber o que haverá no final desse confronto.

Há pouco tempo, um poeta escreveu que “o mundo é uma guerra individualista, cruel, cheia de ações e intenções sem um bom propósito”. Eu, na ocasião, imaginei que se tratava de um mundo distante, não assimilando que, talvez, seja isso que esteja a ocorrer, exatamente agora, dentro da minha bela Turquia devastada. Assim como aquele poeta, eu só queria ter a convicção de que estou fazendo as coisas diferentes do propósito que está nas trincheiras, – mas, infelizmente, ainda não tenho essa percepção. Sou um soldado que foge à luta.

Enquanto isso, na minha guerra confusa do “ser ou não ser”, ocorre exatamente o que sempre achei injustificável: mato, com minhas ações duvidosas, aquele que não odeio, para defender, aquele que nem sequer, tive chance de amar plenamente.

 

 

Camila Barretto.

— Desafio das Palavras (a versão dela)

Paulino x Camila Barretto

“Desafio das palavras” é um jogo proposto com o objetivo de versar sobre temas vindos de fora pra dentro; inspirar-se ao contrário. Dois poetas, cada um com seu olhar sobre o tema/título