Apesar de estar triste pela certeza de que passaríamos todos aqueles dias distantes, ao mesmo tempo, eu estava saboreando uma felicidade rara, pois, foi uma das poucas vezes em que senti no abraço dele, a verdadeira promessa de vê-lo de novo, tão logo possível fosse. E o que seriam vinte dias diante dos meses que passei suportando sua ausência sem qualquer expectativa? 

O levei até as escadas já sabendo que ali só me restavam poucos segundos até ele ir embora.Tomada pelo clima de um novo ano, o olhei profundamente, e resolvi dizer com toda a sinceridade de minha alma:  — Aproveite esses dias. Sério, aproveite. E saiba que eu só desejo coisas boas pra você. — com os olhos levemente marejados, continuei, dizendo a coisa menos egoísta que disse nos últimos tempos: — Desejo que você seja feliz. Mesmo que seja sem mim.

Ele parou em um dos degraus, vislumbrado pelo o que tinha acabado de dizer. Se equilibrando no corrimão da escada, com uma expressão vívida, e a íris do olho resplandecendo o azul mais bonito da escala cromática, ele falou como quem prega uma profecia: — Grave o que eu estou lhe dizendo: nós ainda vamos ser melhores amigos. — falou isso com um ar convicto, me deu um beijo demorado no rosto, e se foi.

Não havia mais nada a fazer, só ir embora contendo o meu sorriso bobo. Então, fui caminhando lentamente, rumo a algum lugar onde eu pudesse absorver essas palavras na solidão do meu íntimo. Porém, sem esperar qualquer nova abordagem, meu coração ainda foi surpreendido. Alguns metros depois do lugar onde eu o deixei, meu celular vibrou, fazendo surgir uma mensagem que parecia estar guardada em seu peito há milhares de anos. Sem que eu esperasse, ele escreveu: “Eu adoro você”. Aquilo ecoou pelos corredores vazios.

Nesse instante, quem parou vislumbrada fui eu.

De olhos abertos e mente distante, logo pensei na gente se abraçando pela centésima vez no intuito de conter a vontade imensurável de trocarmos um beijo. Era como se estivéssemos ganhado uma guerra. A Guerra do Orgulho. A Guerra de Quem Esconde Melhor os Sentimentos. Pelo menos, naquele instante, o orgulho estava derrotado e não fazia sentido esconder o quanto ele me adorava, ou, o quanto esse sentimento habitava em mim desde a primeira vez em que o conheci. Finalmente, essa declaração foi uma das coisas mais explícitas que o seu coração reservado me disse desde então. Pela primeira vez, não me ressenti quando um homem que eu estou apaixonada disse que queria ser meu amigo. Mas não qualquer amigo. O melhor. Da mesma forma, naquele momento, não fiz questão de substituir o “eu te adoro” pelo “eu te amo”. Só eu sei o que tudo isso significou pra gente, e aposto que ele sabia também.

Camila Barretto.