Quando me lembro de você, sinto como se eu tivesse sonhando. Mas é um daqueles sonhos que acontecem rápido demais, que fogem do nosso domínio racional, e que, no final das contas, terminam ficando tão confusos que nem conseguimos lembrar com perfeição das partes boas na hora em que abrimos os olhos. Nesses últimos dias, enquanto eu caminhava na linha tênue entre o medo e a saudade, cheguei à parte do sonho em que fico sem respostas, sem saber o que será de nós dois, bem como, o que será daqueles sentimentos que estão se abarrotando de forma desordenada em meu coração. Eu sabia que isso ia acontecer. E sim. Eu falei sentimentos.

Sentimentos verdadeiros que foram responsáveis pela primeira vez em que te dei o primeiro abraço, ou responsáveis por todos os dias em que fiquei desajeitada ao te ver. Todos os poucos beijos que te dei também foram carregados de sentimento, afinal, se ele não existisse, pode ter certeza que eu não iria me permitir chegar ao ponto que cheguei. Antes de sentir seu cheiro, do prazer que nos proporcionamos, e da intimidade dos nossos olhares, já existia muito sentimento guardado aqui dentro.

Naquela noite de quarta-feira, eu te contei alguns segredos. Então, você sabe que, logo no início, eu queria te ter só como amigo. Mas foi nesse início que o meu lado curioso me levou até você, e, em pouco tempo, a curiosidade sem pretensão virou atração irresistível, daquelas que fazem o nosso coração acelerar quando vai chegando perto, ou ainda, que nos leva a reagir de forma tão transparente e indomável. Culpa do seu jeito maluco e de como fiquei à vontade contigo.

Estava decretada a atração por você, quando os meus olhos já não conseguiam esconder o quanto te desejavam, e quando as nossas bocas já não se suportavam numa distância de trinta centímetros. Mas não foi uma atração trivial que ocorre em qualquer baladinha ou esquina da rua. Foi forte demais, incomum, e eu sei que você sentiu isso também. Sorte nossa que tivemos coragem de assumir. Mas, dentro de mim, misturada à atração que surgiu com tanta avidez, outro fato foi surgindo de forma sutil e inevitável, e esse fato novo foi a tal da paixão.

Mas então, como eu descobri que estava me apaixonando por você? A atração não me faz compor músicas. A paixão sim. A atração não me faz controlar a vontade de falar com a pessoa a todo o momento. A paixão sim. Atração é momentânea, nasce apenas na presença, no contato do corpo ou do olhar. Mas a paixão gruda na pele, no brilho dos nossos olhos, a gente leva pra casa, pra cama, e pras noites mal dormidas. E assim, a partir do momento em que a paixão entrou em jogo, que eu passei a me perguntar o que você sentia por mim. Isso sempre foi e sempre será importante nas minhas tomadas de decisão: a reciprocidade.

Enquanto só havia atração, não me importava em não ser correspondida. Mas, quando há paixão na história – e, pior, – paixão com envolvimento – a percepção de tudo muda. Quem é que gosta de se sentir apaixonado sozinho? Por isso, há algum tempo, venho juntando em silêncio as peças do nosso jogo secreto, tentando entender suas pistas e mensagens surpresas, e os possíveis sinais de que você sente, ao menos, metade daquilo que eu sinto. Nesses últimos dias, tenho sido alguém pela metade, reprimindo minha intensidade e todos os carinhos que vieram escritos em seu nome. Tenho tentado manter certa distância, treinar minha paciência, conter meus desejos de mulher e minhas saudades. Mas, volta e meia, eu me pergunto: pra quê estou fazendo isso?

Onde vamos chegar, ao final de algumas noites regadas de amor e beijos roubados?

Sou da filosofia do “carpe diem”, mas, a interrogação do futuro me incomoda bastante. Não quero, hoje, trocar promessas e juras de amor com você. Mas me incomoda viver uma emoção sem um propósito, e não poder ouvir de sua boca, explicitamente, quem sabe: “você não pode ser minha hoje, mas te quero, de algum jeito, na minha vida”. Óbvio que, se eu estivesse disponível e com toda a energia do mundo para topar o desafio da paquera superficial e do envolvimento sem compromisso, eu continuaria pra ver o final dos nossos capítulos. Afinal, o que eu teria a perder? Mas o fato é que meu coração já anda meio cansado dos dilemas que venho passando, e ele não está com forças para se entristecer duas vezes: por um amor antigo cheio de dúvidas e por uma paixão que mal nasceu e não deu certo.

Por isso, antes que você diga que não dará certo pra nós, vim aqui pra te perguntar isso: você quer fazer a gente dar certo do NOSSO jeito?

Se não for dessa vez, sei que, como todas as paixões dessa vida, a paixão que guardo no dia de hoje, irá se acalmar e virar uma nostálgica lembrança amanhã, e assim, poderemos – se você quiser, simplesmente manter a nossa ótima relação de amigos. Mas, enquanto a vontade de te ter ao meu lado estiver gritando em meu peito, não quero ter que suportar a sua ausência imposta por apenas alguns metros de distância. Não quero me contentar com uma hora paga de prazer, quando meu corpo pede – nem que seja um abraço seu, agora, enquanto escrevo esse texto. Não quero esperar ansiosamente para te encontrar, fazer planos, e cancelar minhas expectativas por algum motivo injustificável.

Enrolados? Amigos? Quase-namorados? O que somos? É verdade que não preciso de rótulos a essa altura. Mas é que você é tudo e nada em específico. Você é como um sonho, que apesar de tão envolvente e gostoso, não é palpável como a realidade. Se você quer que eu continue sonhando, me diga, me fale com o coração que eu fico. Mas se for melhor eu acordar, ainda há tempo. É só vir de mansinho, e sussurrar ao pé do meu ouvido que está na hora de sair dos seus braços e voltar, enfim, pra minha velha vida.

 

Camila Barretto.