Hoje um leitor me pediu, encarecidamente, para escrever algo sobre o amor. Todavia, ele queria um escrito novo, um caso distante de qualquer teoria convencional. Tentei escrever qualquer coisa que fizesse sentido, mas parece que tudo que registro está codificado em algum idioma púbere, agora mesmo inventado por algum desocupado.

Fico até imaginando se um dia terei a mesma inspiração insaciável de outrora, aquela chuva ácida de ideias devastadoras que me queimava o cérebro e me dava taquicardia, tal qual um covarde sente ao se jogar da beira de um precipício. Lembro que só de pensar naquele doce menino adentrando a porta, eu já sentia vontade de pintar um quadro, compor uma música, criar uma coreografia jamais ensaiada por um Ballet famoso da França.

Respirei fundo e busquei entender essa minha falta de imaginação. Haverá muitos dias pra se viver, eu sei. Tudo pode acontecer amanhã, talvez. Mas sinto saudades daqueles momentos em que minhas mãos hesitantes buscavam qualquer lápis com ponta, apenas para rabiscar em um guardanapo usado, uma frase genial sobre nós dois. Tudo fluía, e apesar da imensidão brilhante do meu sorriso, eu estava triste, no fundo de um poço escuro, e era isso que fazia sentido.

Meu caro leitor, o escritor vive de histórias tristes, pois de histórias tristes nascem as estórias mais bonitas. E aí eu lembro: a tristeza quando não faz sofrer, traz inspiração. Hoje estou feliz demais. Sinto muito, por não conseguir falar sobre o amor como você gostaria.

Camila Barretto.