Há algum tempo o descobri por aí e não dei muita importância. Ele quase passou por mim despercebido, não fossem seus notórios olhos que sorriam toda vez que me encontravam, não fosse, talvez, a jovialidade explícita em sua simpatia aconchegante. Ainda assim, e apesar de tudo, eu não ligava muito. Geralmente, me incomodo com olhares exacerbados, tal como eu fosse um pedaço de carne fresca numa selva de famintos, mas o dele era distinto, e até posso dizer, estranho. Tão estranho que me despertou uma curiosidade incontrolável de conhecê-lo a fundo. O olhar dele não era selvagem, indelicado como aqueles que quase sempre vêm acompanhados de irritantes assobios. Parecia mais com um galanteio afável sem dizer qualquer palavra, um carinho nos nós dos dedos, um fungado quente no pescoço que só de pensar, me arrepio.Fiquei com aquela sensação durante todo um domingo, com fragmentos daquele olhar colorido na mente, como gotinhas de tinta na iminência de caírem num papel branco. Vi as cores caírem na tela em câmera lenta. Mas, até então, nada era tão atinado, que me fizesse querer pintar um quadro impressionista, mais um quadro para a minha galeria de lembranças. O vento soprava ao meu favor, o prumo era firme, o jogo estava bom pro meu lado. Mas, sem qualquer aviso prévio, numa manhã chuvosa de terça-feira, ele se fez presente de novo, e dessa vez, senti algo chispar, queimar, corroer por dentro. O quadro se pintou sozinho. O jogo virou pro outro lado.

Com seu par de olhos risonhos, ele abriu a boca e dela saiu uma fala branda e prudente, tudo num esforço legítimo de iniciar qualquer assunto. Vi em sua voz estreante, a apreensão de um suposto silêncio, e por isso, valorizei, ainda mais, o seu empenho. Sorri de volta, trocamos palavras que já nem lembro. Depois de quatro minutos e meio por perto, em que senti ele me observar de longe, ele piscou e partiu. Algo em mim entendeu aquilo como uma mensagem subliminar, algo que não acontece em todos os Outonos. Como o olhar daquele homem-menino, aquele foi um momento estranhamente íntimo e instigante. Eu precisava prolongá-lo de algum jeito. Mas quando? Meu coração respondeu: agora é o momento.

O que ocorreu, logo depois, foi atípico. Fui tomada por uma coragem voraz e infrequente. Tive a sensação de ter sido enclausurada por anos, e finalmente, saído em direção à luz do dia. Em mim, urgia uma sensação de pânico, frenesi, e, ao mesmo tempo, de liberdade. Não raciocinei, eu mesma me impedi de fazer isso. Coloquei meu cérebro no mudo, peguei o telefone sem fazer quaisquer ponderações e disquei aquele número da minha velha agenda empoeirada. Ele atendeu sem ter noção de quem poderia ser, mas pelo espiral dos fios, senti-lo abrir um grande sorriso surpreso, reflexo do meu que já estava ali, pintado no meu rosto. Eu sei que ele iria pra qualquer lugar comigo. Ele me disse isso. O que mais poderia dar errado? Era apenas um casual e inocente almoço. Um convite. Uma mudança, repentina, nas regras do jogo que eu já estava perdendo. Ou ganhando.

Nunca se sabe, afinal.

Ele virou o jogo e deve saber disso. Aquela imagem do rapaz de sorriso tímido e extasiado toda vez que me via, foi, em pouco tempo, substituída pelo cenário de uma moça sentada num banco, sozinha, aos suspiros. Eu sou essa moça. Talvez ele não tenha se dado conta ainda, mas, ao sinal do meu primeiro descuido, ele irá perceber. Todo mundo sabe quando tem alguém nas mãos.

Camila Barretto.