Após tantos dias sumida, ela foi naquele restaurante de sempre, mas, diferente das últimas vezes, temia encontrá-lo por lá. Com passos rápidos, semblante fechado, ela caminhou até o portão da entrada e olhou para todos os lados, desconfiada. Sempre conseguia disfarçar muito bem sua dor solitária, mas não naquele dia. Ela esqueceu suas máscaras em casa, mesmo que fosse melhor não usá-las. Ela não se sentia pronta pra lhe dar um sorriso convincente, nem para responder o conveniente “tudo bem”, logo após a inevitável pergunta de “como vai?”.

Mas, como dizem, a vida é uma peça que não permite ensaios.

Olhou pra trás, e, de repente, reconheceu que era ele. Dentre tantas pessoas, era ele, um metro e setenta, e a mesma camisa azul clara de sempre. Era ele e aqueles olhos que combinam tanto com suas camisas sociais. Um frio dolorido na espinha chegou para lembrá-la de todos os momentos que passou ao seu lado. Se fosse num breve passado, ela diminuiria o passo para, propositalmente, seus caminhos se cruzarem. Ela iria ao seu encontro de alma lavada. Mas, ao invés disso, ela quase travou. Vestiu sua capa da invisibilidade. Fingiu que não viu e procurou o lugar mais escondido para sentar.

O almoço desceu sem graça. Se pudesse sumir dali mesmo, sem deixar rastros, ela iria se teletransportar. Mas precisava se levantar e pagar a conta. Nessa quase missão de não ser notada, se ergueu num sobressalto, esbarrando-se em alguém que também tinha pressa para sair daquele lugar. Era ele, logo ele, dentre tantas do mundo pessoas para se esbarrar. A capa invisível virou palidez, que, pouco a pouco, foi se dissolvendo em bochechas coradas. Ambos trocaram um sorriso surpreso. Sorrindo aliviado, ele, enfim, perguntou “como vai?”. De forma sincera, ela o respondeu: tudo bem.  Tudo voltou pro lugar. Ele, verdadeiramente, sentiu-se bem por tê-la encontrado. E ela, pelo visto, também.

E assim, num desses esbarrões não planejados, mais um dos seus medos foi superado. O medo do reencontro inesperado.

Camila Barretto.