Ouvir sua voz, mesmo que através do celular, entrecortava meu peito. Eu tinha que fazer o certo. Eu precisava ser forte.

— Tem certeza que você quer mesmo ficar longe de mim? – disse ele com uma voz rouca, o que me fez rebobinar nosso filme em minha cabeça. Suspirei, mordendo o lábio inferior. Eu não podia deixar aquela maldita lágrima cair.

— Você não me deu muitas opções. – respondi, sem muitos rodeios.

— Escuta, não tenho muito tempo. Sei que não sou o Romeu que você estava esperando, mas quero te provar que nossa história pode dar certo. – ele disse, tentando me ganhar com um romantismo improvisado. Engoli seco. É claro que o que eu mais queria era que déssemos certo, mas isso não aconteceria e nós dois sabíamos. Finalmente, criei coragem e falei num tom desafiador:

— Eu cansei de dividir a nossa história com outras pessoas. Agora é você quem precisa me escutar. Como pode me querer por inteiro se você só me doa metades? — respirei fundo, tentando controlar a irritação que eu havia externado.

— Desculpa se te fiz sofrer. – ele avaliou em um tom de voz quase inaudível. Enquanto isso, senti um queimor sobre minhas bochechas. — Deixa eu te ver hoje, só mais uma vez? – ele insistiu. Mesmo querendo dizer um sim, fiz de tudo para escapar dessa resposta imediata:

— Porque eu deveria? — ponderei, tentando manter minha voz o mais imparcial possível, mas as palavras escaparam da minha boca antes que eu pudesse controlá-las. Elas foram mais fortes que eu: — Ok. Quando? – eu disse, respirando fundo. Poderia apostar meus rins que ele estava rindo do outro lado.

— Sabia que você não ia me dizer não. — ele disse, enfim, conseguindo me tirar do sério e me fazendo equilibrar meu coração numa corda bamba de sentimentos. Lembrei daquele sorrisinho cafajeste que me trouxe tantas lágrimas, mas tanta felicidade. Uma raiva se apossou de mim. Eu precisava rebater como sempre fazia. — Você se acha mesmo, não é? – esperei a resposta sarcástica que não veio. — Alô? Alô? – repeti, sem sucesso. Do outro lado da linha, uma mudez ridiculamente ensurdecedora.

— Desligou, o desgraçado. – esbravejei, jogando o celular na cama, mas o peguei novamente. Nosso assunto não estava encerrado. Eu precisava dizer tudo o que estava entalado, dessa vez, olhando nos olhos dele. Às três da tarde, digitei uma mensagem rápida, antes que eu mudasse de ideia:

“17h30, no lugar de sempre.”

Peguei minha bolsa e saí de casa em direção ao banco do parque que havia se tornado nosso ponto de encontro. Aquele banquinho em frente ao lago guardava memórias do nosso primeiro beijo, das nossas discussões, do aniquilamento de toda a saudade. Aquele banco trazia paz e era o que eu mais buscava no momento. Saí bem mais cedo de casa porque queria um tempo sozinha. Queria poder gravar cada pedaço daquele lugar, pois, se eu não retornasse a ver o motivo dos meus risos mais sinceros, não havia motivo para voltar ali.

Subi no ônibus e encostei minha cabeça na janela. Não podia acreditar que aquele menino tão carinhoso – e turrão em algumas horas – poderia sair da minha vida pra sempre. Por que ele não podia me querer tanto quanto eu o quero? Porque eu não era suficiente? Porque ele precisava de mais? Tantas perguntas ecoavam em minha mente, deixando minha visão embaçada. De repente, me lembrei daquele dia em que ele me mostrou, claramente, os seus limites.

“Estar com você é muito bom, mas não posso te dar mais do que isso, sabe? Não posso ser de ninguém. Não estou preparado pra isso e nem sei nem se estarei algum dia. Não me sentiria bem em saber que você poderia estar criando sonhos que não poderia corresponder. Mas, isso não significa que eu não deseje você. Eu quero tocar sua mão, mas também quero tocar seu corpo inteiro. E quero de você o mesmo. Porém, preciso que fique claro: eu não sou nenhum Romeu.”

Lembrei dele falando em câmera lenta essas palavras, enquanto passava a mão pelos cabelos em um gesto aflito. Abaixei minha cabeça na tentativa vã de esconder minha visível tristeza.

“Eu não sou nenhum Romeu”.

Essa era frase que ele mais repetia nos últimos tempos. Como alguém poderia se fechar tanto por dentro? E o pior de tudo, era que esse pesadelo já havia acontecido comigo. Já era a segunda vez que eu esperava a opinião dele mudar. E talvez, ela nunca mude. Quem sabe, essa história que eu tanto achei que fosse de nós dois, seja só minha. Eu e minha ilusão.

Desci do ônibus e atravessei o parque em direção ao lago. Como sempre, o nosso lugar estava vazio. E foi assim que eu imaginei que ele permaneceria logo depois do fim. Sentei olhando o céu alaranjado à espera do pôr do sol, como sempre fazíamos. Eu estava mais magoada do que o previsto e mais sóbria do que deveria. Eu não costumava beber, mas não conseguia pensar em nada capaz de acalmar a agonia do meu peito. Já eram 17h40 e o sol já estava começando a se pôr, mas nenhum sinal dele. Quão ingênua eu havia sido em esperar que ele viesse? Levantei as pernas e abracei meus joelhos deixando as lágrimas descerem pelos meus olhos, assim como o sol descia, pouco a pouco, por aquele imenso céu.

Enquanto eu tentava controlar meus soluços, abaixei a cabeça no intuito de encontrar algum conforto. Contudo, meus pensamentos foram interrompidos pelo chacoalhar de algumas folhas, me fazendo levantar a cabeça e presumir que alguém estava se aproximando. Meu coração encolheu por perceber que não era um alguém qualquer. Senti faltar o ar em meus pulmões, e só então, percebi que eu estava prendendo a respiração. Ele estava ali. Sim, era ele. Observei seu corpo esguio caminhar em minha direção e tentei não parecer tão abalada.

Seu cabelo pendia sobre a testa molhada de suor, e tudo o que eu pensava era em abraçá-lo e afagar meus dedos naqueles fios negros macios. Mas eu sabia que não podia. Notei em sua mão um embrulho. Flores? Eu não podia acreditar. Ele não era do tipo nem que arrancava flores para me dar, mas ele estava ali, com um singelo buquê em suas mãos. Meu coração se apertava a cada passo que ele dava. Eu não conseguia mais esconder o turbilhão de sentimentos. Em silêncio, lembrei da primeira vez em que o vi. Desde aquele momento, eu sabia que ele não seria algo passageiro. Sabia que aquele sentimento não era  superficial. Sentir que ele estava ao meu lado depois de todas aquelas circunstâncias me deixava vulnerável.

Enquanto eu pensava em como seria uma péssima ideia lhe dar um último beijo, notei que ele estava concentrado, e escrevia algo no cartão. Em seguida, ele o colocou num envelope junto às flores que já estavam no banco. Preferi não manter contato visual na tentativa de observar a despedida do sol, mas eu sabia que não conseguiria. A única despedida que estava se consumando, de fato, era a nossa. Eu queria dizer tudo o que eu sentia, mas nenhuma palavra saia de minha boca. Ele também não sabia o que dizer. Por fim, ele se levantou, me olhou profundamente e num silêncio mais estranho e mais revelador que já presenciei na vida, ele me deu um beijo no rosto e saiu.

Acabou. Eu estava completamente sozinha naquele momento. Eu, as flores e aquele cartão.

Após ter certeza de que ele tinha partido, abri o envelope com as mãos trêmulas. Enxuguei os resquícios de lágrimas na minha camiseta e comecei a ler aquelas palavras que tinham sido escritas exclusivamente pra mim:

“Sabe, eu estava enganado. Talvez eu tenha sido o seu Romeu esse tempo todo. Mas só agora, nesse fim de tarde, nesse fim de tudo, pude ler nossa história sob outra perspectiva. Como o sol que se põe nesse exato momento, eu me recolho no horizonte, sozinho. Mas, não fique triste. A noite se faz necessária para refazer os seus sonhos. Por enquanto, deixa o nosso amor se pôr nessas águas de incertezas. Só assim, ele terá a chance de se refazer e, se for pra ser, ele renascerá outro dia.”

Cada palavra rasgava meu peito em pedaços, mas, ao mesmo tempo, me confortava como um abraço macio. Eu sei que ele sentia o mesmo quando as escreveu. Ali, naquelas letras de forma, estava tudo que precisava ser dito. Por mais que doesse vê-lo sair de cena, eu sabia que esse não seria o nosso fim. O sol sempre se despede para dar lugar à lua e às estrelas, mas o bom dele é que ele sempre volta. O sol sempre volta quando amanhece.

Assim, no conforto da noite que estava chegando, me apeguei à esperança de um próximo verão em que eu, finalmente, pudesse tê-lo de novo em seu ápice mais terno. O meu eterno Romeu.

 

Camila Barretto e Flora Medeiros.