Me despedi do que deveria, peguei as pequenas bagagens, abandonei os excessos e carreguei, de um lado, o a utopia e,  do outro, a alegria de quem partia para o destino ainda desconhecido e somente com a passagem de ida. Avistei o céu, respirei fundo, contei até dez. Em seguida, fechei os olhos e implorei para o tempo não passar. Não houve acordo.

Senti o vendo bater no rosto, me arrepiei toda. A sensibilidade estava à flor da pele, os cabelos voavam alto, bem como, meus pensamentos. Despachei as malas, fiz o check-in, iniciei a viagem. Imaginei o quanto é bonito receber uma mensagem de “bom dia”, que tem a indispensável missão de tornar o dia especial e fazer sorrir cada minuto que lembro da gente. É bonito ser diferente, surpreender com o beijo na testa, trazer uma flor, ou bilhete. Sair do monótono, se preocupar, cuidar, querer tá junto, tornar o outro singular e mandar sinais que identifiquem “estou pensando em você.” Um telefonema no fim do dia, um interesse em saber o que fez ou deixou de fazer, têm valor imensurável. É bonito por demais ter alguém que nos refaça, que nos dá um gostinho de querer mais. Minha mente parou só pra pensar no impossível que só se torna possível a mim mesma.

Admiro a sua forma serena de conversar com as pessoas, a atenção e paciência que lida com as crianças que brincam no parque da cidade e,  vez ou outra, me pego nas fantasias de ver mais adiante e acreditar que será assim com os nossos filhos, que os domingos terão as programações traçadas nos passeios que ficarão marcados não só nas fotografias, mas também em nossas memórias. Quando, por um descuido, a tristeza vier nos abater, teremos um
ao outro para fortalecer. Planejo uma vida simples, mas feliz ao seu lado. Porque você me ensinou que não é preciso muito para se sentir plena.

A felicidade mora onde a simplicidade
habita.

Esse é o meu jeito estranho de gostar de alguém. Um gostar essencialmente puro, um alguém que tem nome, endereço e CPF. Alguém de carne e osso, mas que sobrevive no surreal da minha realidade. Uma paixão não correspondida, sem aproximação, sem toques, sem beijos e, consequentemente, sem defeitos.

No fim dessa viagem, arrumo as malas e volto para o lugar de origem sem muitas coisas boas para contar. Não é que eu não tenha visto belas paisagens ou desfrutado de novas experiências. Não foi isso. É que pra mim, Londres, Paris ou Cancun pouco importam se você não estiver comigo. Os personagens têm significado maior do que qualquer cenário.

Meu coração inocente sentiu saudade de casa e pediu pra voltar por não aguentar essa viagem sozinha.

 

Giulia Christy (escritor parceiro)“Este texto faz parte da 2ª edição do Desafio das Palavras (Camila Barretto x Giulia Christy) – um jogo proposto com o objetivo de versar sobre temas vindos de fora pra dentro; inspirar-se ao contrário. Duas escritoras, cada uma com seu olhar sobre o tema/título.”