É de praxe. Ele a acorda com beijos todos os dias. Faz o almoço de sempre nos domingos e não liga de lavar os pratos de segunda à sexta para que o esmalte dela possa durar mais. Ele não disputa o lugar na janela nas viagens, decorou o nome dos personagens de sua série favorita e descasca suas frutas, pois sabe que assim, ela irá comê-las sem reclamar.

Toda noite, ele coloca a TV no mudo para ela conseguir pegar no sono mais rápido, e, se caminham juntos pela rua, aponta sempre que vê um cachorro peludo, pois já conhece seu amor por esses focinhos abandonados. Ele é previsível, e, ao lado dela, sempre teve um coração constante. Enquanto ela é maremoto, ele é a estabilidade dessa relação. Ele é rede e calmaria.

Ela, contudo, adora ser surpreendida; mas com ele, não se importa de ser protegida das surpresas da vida. Apesar de ainda gostar de ver a luz da lua, ela aprendeu a trocar baladas noturnas, pelo aconchego dos lençóis desarrumados. Ela entendeu que a rotina é necessária para conhecer certos hábitos ofuscados pela correria do cotidiano. Nos braços dele, ela acha o colo para curar o cansaço de um mundo que muda e gira veloz. Ela descansa em paz, sem pressa, sem medo da rejeição.

Assim, eles se encaixam e se entendem em suas rotinas feitas de silêncio e som.

A rotina, quando bem vivida, é imprescindível para conhecer o outro a fundo, sem superficialidades. A gente não nasce pronto para vivê-la, afinal, desde que viemos ao mundo e abrimos os olhos, queremos conhecer o que há além daquilo que podemos ter nas mãos. É por isso que os efeitos da rotina tanto nos assusta. Ganhamos rotina de brinde por desejarmos estabilidade. Mas não a rejeite por inteira. Ela tem o seu valor.

Por outro lado, ser monogâmico é uma questão de escolha: é sim ou não. Ilusão é confundir monotonia com o tédio causado por acomodação. Lidar com o monótono, nada mais é que uma condição basilar para amadurecer os corações acostumados com as efêmeras relações.  Sim, a monotonia existe e sua previsibilidade é importante para construir relações duradouras. Em outras palavras, ouso dizer que a monotonia monogâmica é uma rotina, bem vivida, a dois.

Enquanto a paixão quer surfar em ondas, o amor precisa da maré mansa para sobreviver.

“Não existiria som, se não houvesse o silêncio. Não haveria luz, se não fosse a escuridão (…) Nós somos medo e desejo somos feitos de silêncio e som”.

Camila Barretto.