Um marinheiro nunca esquece sua primeira bússola, mesmo que, num errante momento, não faça ideia de como irá interpretá-la.

Nunca havia ficado assim: desnorteado. Antes daquelas belas curvas, eu sabia as rotas para os corações alheios, os atalhos para cada beijo roubado. Antes daqueles cabelos compridos, eu era o melhor marinheiro, traçando o caminho pra longe do mar de amor que me fragilizava.

Mas, em poucos segundos, a certeza daquilo que eu tanto evitava, esfarelou-se, sutilmente, diante dos lábios e da pele corada que vestia um corpo de um metro e sessenta. Num piscar de cílios com rímel, perdi meus mapas e minhas certezas. Só sobrou no meu bolso, aquela mulher-bússola que eu não sabia, sequer, decifrar.

Leste e Oeste se confundiram quando nos entreolhamos, e eu vi a agulha da bússola mudar de posição, apontando meu Norte em sua direção. Tentei impedir a mudança de rumo, mas, quando dei por mim, me vi sozinho na Ilha Deserta dos Apaixonados. Seu olhar de quem sabe bem do que é capaz, desapareceu do radar e atraiu pra si toda a atenção de um homem perdido e que ainda não aprendeu a amar. Naufraguei sem saber da jóia rara que eu tinha em mãos.

Desde então, sem rumo e sem noção, tudo o que penso parece sem sentido. Faço coisas por impulso, falo coisas sem pensar. Prefiro conversar com amigos imaginários a interpretar aquele sorriso que me diz tanto. Tão diferente do homem de outrora, desaprendi a ler os sinais de uma mulher, logo daquela que eu tanto gostaria de ter e tocar. Sem querer admitir, fujo da minha própria salvação e prefiro, com isso, afastar qualquer possibilidade de me declarar.

Marinheiro de primeira viagem, sumo na espreita e na espera de que ela me acompanhe. Me sento num canto, no aguardo de que ela tome a melhor decisão. Dificulto, me embaraço, apago os próprios rastros que deixo. Faço uso de sinais de fumaça debaixo da chuva torrente, uso respostas curtas, economizo palavras. Num medo imaturo de amar e ser amado, encaro dias na solidão em uma Ilha, e prefiro agir por instinto – e não com o coração.

Sei que me falta coragem para ler naquele olhar o grande recado estampado: marinheiro e bússola, são homem e mulher apaixonados, que, quando sozinhos, não vão a nenhum lugar. Se não se encontram, se afastam e perdem qualquer sentido. Homem sozinho é bicho perdido. Já mulher, nada mais é que uma bússola brilhante enterrada na areia, esperando, ansiosamente, ser encontrada. Mulher é bússola de ouro que, se não for interpretada a tempo, será um dia, fatidicamente, roubada.

Camila Barretto.

Desafio das Palavras (a versão dela)

Paulino Solti x Camila Barretto

“Desafio das palavras” é um jogo proposto com o objetivo de versar sobre temas vindos de fora pra dentro; inspirar-se ao contrário. Dois poetas, cada um com seu olhar sobre o tema/título.