Com frequência, eu penso dentro da minha livre imaginação: a qualidade da letra de uma música não está diretamente vinculada a um gênero musical específico, mas sim, à condição emocional que certas músicas podem nos remeter.

Esta análise não é, nem de longe, algo técnico: é puramente sensível, apenas, à intimidade dos ouvintes entusiasmados. Eu, pelo menos, gosto de pensar assim. E não só isso. Compor uma música é uma coisa muito particular. Interpretar a letra de uma música também. A música toca, e você já se vê imerso em um cenário que é só seu.

Seus outros instintos sensoriais são imediatamente aguçados. Você acaba se achando meio insano, meio aturdido, pois tem a impressão de ter sentido um toque leve no seu corpo, um aroma afável se aproximando, uma saudade que te desperta o impulso de se lembrar de algo, simplesmente porque ouviu, pela bilionésima vez, uma frase de múltiplas interpretações.

Por outro lado, um compositor que escreve “música com sentimento”, vai encaixando, como num quebra-cabeça, palavras e frases, e intencionalmente, sabe muito bem o que quer transmitir nas entrelinhas. No final, tem-se uma obra-prima fascinante, justamente pela sua ambiguidade discreta. E assim, também ocorre com um escritor, um poeta. Ambíguo, ele escreve o que sente, mesmo que não tenha vivido. Escreve o que vive, pra não morrer no silêncio de si mesmo.

A interpretação fica por sua conta.

Camila Barretto.