Propositalmente, cheguei dois minutos atrasada. Posterguei minha chegada só para ver a reação dele ao me ver passar pela porta, só para sentir o seu nível de expectativa aumentar com o desenvolver de cada passo meu. Cheguei ao local combinado e lá estava ele: de costas, postura distraída, fingindo grande tranquilidade, quando, na verdade, dava pra perceber pela sua frenética batida de pés, a angústia para me ver de novo. Logo. Com urgência.

Aproveitando sua distração, caminhei de mansinho até me aproximar cada vez mais. Quando já estava a um palmo de distância, respirei fundo, absorvendo as partículas do seu cheiro que pairavam pelo ar. Ao sentir o calor da minha respiração, ele se virou de repente e me puxou contra seu peito, me apertando em um abraço inesperado que quase fundiu nossos corpos tomados pelo desejo contido. Sua energia se dissipava de forma intensa naquele emaranhado de braços, assim como todas as palavras intensas que ele me disse no decorrer do dia. Há muito tempo não o via desse jeito: com uma sede insaciável de mim.

Por um rápido momento, me senti pertencente a alguma uma década remota, quando os jovens marcados pelo estigma de um romance proibido, se encontravam às escondidas pelos jardins da cidade. Encontros rápidos, onde a mocinha dava um bilhete perfumado para o rapaz, e, em contrapartida, ele a presenteava com algo que a fizesse guardá-lo na lembrança. Em nossas mãos, não havia bilhetes ou presentes. Ao nosso redor, não havia arbustos ou flores, apenas frias paredes brancas. Mas existia algo muito maior, algo invisível aos nossos olhos e que eu já estava sentindo falta: entrega. Existia nele, a livre e espontânea vontade de estar comigo, apenas para me ver, me abraçar, ouvir minha voz. A espontânea vontade que nada tinha a ver com o sentimento carnal há tempos evidente.

Diferente de outras ocasiões, em que eu já presenciei no seu olhar o pavor de se aproximar de mim, ou pior, em que eu tive que segurá-lo pelo braço só para conseguir que ele me olhasse no fundo dos meus olhos, naquele fim de tarde, eu percebi seus sentimentos fluindo naturalmente como um rio. Tudo isso, porque ele se permitiu esquecer, nem que fosse por dez breves minutos, o receio absurdo de abrir seu coração. Enquanto eu conversava um assunto qualquer, notei o quanto ele acompanhava atentamente o movimento dos meus cabelos, a textura dos meus lábios, o meu jeito de sorrir.

Dentro dos seus olhos de anjo, havia tantas confissões que foram me ditas em silêncio, e uma delas foi a explícita verdade de que eu tinha algo diferente a ser desvendado. Podiam existir outras mulheres na sua vida, outras dezenas de mulheres em busca de sua atenção. Mas com a gente o magnetismo natural era incontestável. Esse fato, se comprovava, inclusive, pela necessidade incontrolável de ele tocar meu corpo sempre quando conversava comigo. Ou pelo calafrio mútuo que sentíamos em seguida, após um simples encostar entre nossas peles.

— Queria te levar para passar as férias comigo. — Disse ele, inesperadamente, já na nossa terceira tentativa de se despedir.

Nos calamos diante daquela impossibilidade.

Enquanto ele me abraçava, fechei os olhos, e imaginei a gente realizando o sonho impossível de passar as férias juntos. Café da manhã todo dia, cochilo na rede e um cafuné enquanto eu ouvisse uma música que lembrasse nós dois. Beijos tórridos na areia da praia, pele salgada de mar no fim de tarde, a gente fazendo amor, um novo amor, quem sabe, começando a se fazer na gente. Abri os olhos e me deparei com ele contemplando, quase como um admirador de uma rara obra de arte, a minha expressão sonhadora.

Naquele momento não me restaram dúvidas: aquele homem com coração de menino e cabeça confusa estava apaixonado por mim.
Estava apaixonado como sempre esteve. Senti naquele desejo de estar comigo, a doce, e talvez, efêmera sensação de reciprocidade, que podia durar uma vida inteira ou se acabar junto com o calor daquelas férias de verão.

Camila Barretto.