Eu poderia te seduzir com um icônico batom vermelho. Com uma lingerie atrevida. Ou com uma performance espetacular na cama. Eu poderia te aliciar com um olhar malicioso, com um decote generoso ou com um cruzar de pernas avassalador.  Mas, o fato é que é impossível ser tão irreverente assim, todos os dias, em todas as horas, a todo o momento. Temos dias de caçador e dias em que precisamos ser, tão somente, a presa. É cansativo sustentar um papel sedutor da hora que a gente acorda à hora que vamos dormir. Seduzir, propositalmente, nos cansa, pois não deixa de ser um jogo, concorda? Então, na maioria das vezes, precisamos relaxar e esperar que o charme e a atração fiquem por conta dos pequenos detalhes implícitos. Detalhes que são bem mais fascinantes, acredite, do que qualquer batom vermelho na boca. Não que não seja interessante apimentar a relação de vez em quando, mas, o que estou ponderando aqui é que existem pormenores inconscientes, que independem de qualquer ensaio ou de qualquer atributo físico, e que atraem o outro sem que, ao menos, a gente perceba. Ou compreenda a razão.

Meu sinal de nascença, por exemplo. Já reparou como ele mexe contigo? Basta minha blusa levantar um pouco, deixando-o à mostra, que os seus olhos lampejam. Saltitam. E me devoram. Existe algum poder de atração entre você e meu sinal que eu não entendo. Eu não tenho culpa de você gostar tanto das minhas marcas, eu não fiz nenhum esforço por isso. Mas, sem querer, eu te seduzo. E seduzir, sem querer, é tão maravilhoso. E meu suor? Já pensou o quanto ele te instiga? Enquanto, no calor dos trópicos, eu me preocupo em não derreter minha maquiagem e não ficar tão parecida com o Coringa, você se distrai com o suor que escorre pela minha nuca, observando-o descer, ladeira abaixo, por todo o caminho das minhas costas. Aposto que você, de um modo bem pervertido, fica imaginado onde será o fim daquele percurso. Ou melhor. Morre de vontade de lamber, feito bicho, aquela gota que brota da minha pele, assim como me lambe quando estamos fazendo amor. Vai entender sua ficção pelo suor do meu corpo?! Mas eu sei, — ah eu sei! — que ele te instiga.

Da mesma forma, sua cara de sono me encanta. A firmeza com que você segura o volante. O jeito que você beija devagar minha boca. E sua destreza esquizofrênica em conversar, ao mesmo tempo, de mil e um assuntos. Você me seduz, até mesmo quando me irrita, e especialmente quando imita, desengonçadamente, a forma que eu danço ou algum defeito meu. Você consegue ser um típico Don Juan, basta pedir pra segurar minha bolsa ou me perguntar, de um jeito risonho, onde iremos almoçar. Quando iremos nos ver. Ou como vai sobreviver sem minha companhia no próximo feriado em que não passaremos juntos. Sua voz, não posso me esquecer de mencionar: é uma das mais sedutoras que eu já ouvi. E, mesmo odiando falar ao telefone, é por esse motivo — e unicamente por sua voz tão linda –, que eu não me importo quando você me liga. Assim, o nosso jogo de sedução não é bem um jogo competitivo. Afinal, ninguém perde. E todo mundo ganha. E a gente volta pra casa, todos os dias, com um troféu de lembranças bonito, só pra que a gente não se esqueça que a maior sedução está na miudeza dos nossos atos e não, propriamente, nas nossas mais charmosas intenções.

 

 

Camila Barretto.