Em uma noite dessas, já no final do expediente, um amigo confidente me perguntou: — Por que vocês não estão mais juntos?

Por um momento, pensei em dizer o velho clichê de que não éramos tão compatíveis. Pensei ainda, em elencar todas as nossas possíveis dificuldades, mas percebi que esta seria uma explicação longa demais. Pode parecer esquisito, mas a resposta que eu encontrei foi: — O motivo do nosso término foi a nossa paixão. Infelizmente, eu e ele estávamos apaixonados.

Sim. A vida tem dessas coisas.

As pessoas terminam relacionamentos por muitos motivos. Às vezes, vários deles se misturam e nos impulsionam a tomar uma decisão. Contudo, sempre tem aquele motivo crucial: falta de desejo, diferença de interesses, distância, ciúmes, e por aí vai. Há ainda, aqueles que terminam um caso porque não querem compromisso e o relacionamento acaba ficando mais sério do que o previsto. Esse é o motivo que talvez, mais se aproxime da nossa justificativa para o fim. A única diferença é que o foco não foi o medo do compromisso em si, mas as dimensões que o nosso sentimento estava ganhando. Pra mim, isso foi uma grande novidade.

Acabar um relacionamento alegando estar apaixonado é coisa de louco, deixa a gente sem chão por algum tempo. É uma decisão complexa, porque colocamos em confronto a nossa razão e emoção, forçando, claro, que o lado racional se imponha aos nossos mais profundos desejos. É como transformar o amor em um terrível vilão, e não conseguir achar outros motivos visíveis para justificar o rompimento. Foi assim que eu me senti ao tentar explicar ao meu amigo o porquê da nossa decisão. Ele, com o seu ar inquisitivo, vestiu seu jaleco de psicólogo e me bombardeou de perguntas:

— Mas o coração acelerava quando vocês se olhavam?
— Demais.
— E sexo não era bom?
— Era maravilhoso!
— O papo fluía em perfeita sintonia?
— Desde o primeiro dia.
— E vocês sentiam saudade um do outro?
— Sim, sim e sim.
— Mas, ora, porque então vocês terminaram? – ele me questionou, outra vez, atordoado.
— Porque ficamos a-pai-xo-na-dos demais. – repeti em alto e bom tom, e com letras garrafais.

É, meu amigo. Se você ficou perplexo, imagina eu. Sabe, a semana em que a gente terminou será sempre inesquecível. Lembrarei da alegria do nosso encontro, do sorriso bobo debaixo do chuveiro, das minhas gargalhadas ao ouvir suas histórias. Na semana em que tudo chegou ao fim, nós nos entregamos como nunca. Como esquecer da sua fome por fazer amor, da sua mensagem de saudade no dia seguinte, do seu desejo interminável pelo meu abraço? Como esquecer da doçura em nosso olhar? Mas aí, sentimos medo. Medo por estarmos querendo demais.

Nessa mesma semana, ele me falou que precisava me esquecer.
Nessa mesma semana, eu pedi pra ele não me ligar mais.
Nessa mesma semana.
Logo nessa inesquecível semana em que estávamos tão apaixonados.

Camila Barretto.