Era um dia comum igual a todos os outros, nenhuma data especial, nem motivos para comemorar. Apenas estava cansada da rotina, do trabalho em grande escala e quis fazer diferente. Não sei o que me inspirou a fazer isso, só sei que quebrei os paradigmas: o que tanto me deixava exausta poderia ser também a justificava do meu descanso. Por que não? Resolvi ficar a sós comigo mesma. Fui ver o mar, observei por um longo tempo. A imensidão avistada estava calma e o desejo do meu coração era ser invadida pela mesma tranquilidade.

Te notei de longe. Um moço bonito, atraente, com um charme sob medida, sob as minhas medidas. Se aproximou de mim, e perguntou gentilmente se poderia sentar-se um instante comigo. “Sim, com certeza”, respondi com as mãos suadas e convicta de que ali seria o início de uma grande aventura. Trocamos os nossos nomes numa breve apresentação e em seguida, o silêncio reinou. A impressão que tinha é que te conhecia há anos, há vidas. Respirei fundo, desconectei o mundo externo e visitei o meu que já não era só meu e sim, nosso. Perdi as horas. Perdi a culpa, o medo, a fadiga, os pensamentos. Me perdi para encontrar você. A conexão era tão forte que eu não sei explicar.

Você me convidou para dar uma volta e esse convite foi irrecusável. Andamos por trilhos que não sabíamos a qual destino nos levaria, fitamos o olhar para onde o sol beijava o mar e fizemos o mesmo, naquele fim de tarde. Ofereceu-me uma carona até em casa, porém no meio do caminho, me levou a outro ambiente. Não costumava ceder de primeira, mas me entreguei sem pena. Não me culpe por isso. Você foi carinhoso e apetitoso como nenhum outro homem conseguiu ser e eu repetiria a dose mais cem vezes se pudesse. Despreocupados, descalços das más energias e despidos dos pré-julgamentos de quem acabara de se conhecer, trocamos ideias, carícias, desejos. Pele a pele. Rasgamos nossas histórias sem pretensão…
Soltei após ter declarado o quanto foi bom:

— Eu nunca fiz isso.
— Isso o que? — você indagou, com certa curiosidade nos olhos.
— Sair com um desconhecido e… — minha timidez não estava colaborando.
— E… O que?! Complete a frase.
— E, você sabe… — eu disse, com vergonha, e, gradativamente, me negava a terminar.

Você tinha prazer em ouvir as minhas revelações nada pudicas. Insistiu e nada saiu da minha boca, então foi a vez de se desnudar. Não mais o corpo, pois esse já estava nu, mas a alma;

— Ainda é cedo para tirar quaisquer conclusões, porém gostei tanto que vou revelar um sigilo. Promete que vai guardar? — perguntou-me com ar de quem espera uma resposta positiva.
— Não posso prometer, mas farei um esforço. — falei, ansiosa.
— Mesmo te conhecendo há poucas horas, queria pertencer por inteiro a você por pelo menos um minuto. E isso nunca será possível. — pausadamente, você concluiu: — Sou casado.

Em seguida, você pediu um milhão de desculpas. Disse que o casamento estava falido e que eu não tinha nada a ver com um problema que era unicamente seu. De fato. Fiquei chateada, observei as justificativas, contra argumentei sobre cada uma delas. Foi em vão. Confessou que há anos não tinha um momento agradável como o nosso. Pensei na mulher, no infeliz adultério cometido, que foi feliz até não saber a versão completa, pensei na vulnerabilidade que existe em nosso ser, no impulso que leva a cometer tal ato… Saí sem me despedir.

Guardei o segredo, o nosso segredo. Guardei a mais insensata história e te guardei num lugar especial.

Essa confidência continua evidente na minha memória e na sua também. Tive essa confirmação hoje, após me esbarrar contigo duas décadas depois do ocorrido. O acaso nos presenteou novamente e a gente não suportou dividir nenhum metro por quadrado sequer, além de dividir o grande segredo que nos rodeava. Tava na cara, não dava para disfarçar. Quem estava de fora via nitidamente que tínhamos muita coisa em comum. A mim, cabia o afastamento. Fugir com todas as forças de um amor proibido, impossível de ser sobrevivido, fundamentado, mas que tem sido resistente ao tempo e a nós dois.

 

 

Giulia Christy (escritor parceiro)

“Este texto faz parte da 2ª edição do Desafio das Palavras (Camila Barretto x Giulia Christy) – um jogo proposto com o objetivo de versar sobre temas vindos de fora pra dentro; inspirar-se ao contrário. Duas escritoras, cada uma com seu olhar sobre o tema/título.”