Enquanto eu, com o olhar calmo, tirava minha blusa, ele lutava para se desvencilhar, rapidamente, da calça jeans. É claro que eu já sabia onde iríamos chegar no final de tudo aquilo. Eu sei que ele estava faminto pelo meu corpo, mas tudo o que eu queria era saciar nossas vontades de outro jeito.

— Espera… Hoje eu não quero fazer amor com você. — o interrompi, tentando resistir à vontade de tê-lo, mais uma vez, dentro de mim.

— E o que você quer agora? – ele perguntou com a voz baixinha, beijando minha barriga e passando sua mão pervertida por dentro das minhas coxas. Eu troquei de posição, e afundei meu rosto no travesseiro.

— Eu só queria seu carinho. — minha voz soou mais melancólica do que eu gostaria. Dei um longo suspiro, enquanto ele, em silêncio, pensava em algo persuasivo para me dizer.

— E se hoje a gente fizer “amor com carinho”? – ele sugeriu, tirando meus cabelos do pescoço e tragando da minha pele seu perfume favorito. Deitada de bruços, eu continuei sem dar uma palavra, mas meu corpo expressava muito bem aquilo que eu tanto desejava. Mordiscando minha orelha e deixando em mim, rastros da sua respiração, ele me deu, exatamente, o que eu estava precisando. Enquanto ele encostava, levemente, seus lábios em minhas costas, eu fui saboreando, entre um arrepio e outro, a gostosa sensação de me entregar daquele jeito. Um jeito tão íntimo… Uma forma tão protetora de ser tocada por ele, como há tempos, minha alma exigia.

É verdade que depois de tanto tempo, nós já tínhamos experimentado viver algumas loucuras. Mas nunca havíamos feito amor daquela maneira. Sem a pressa como pano de fundo. Sem a lascívia como protagonista dos nossos atos. É claro que das outras vezes em que nos entregamos, também existia muita carícia e cuidado envolvido, mas, tomados pelo fogo incontrolável da paixão, sempre sucumbíamos a uma relação de extensa busca pelo nosso prazer. Era quase uma corrida contra o tempo, cujo objetivo final era saciar nossas vontades mais urgentes. Não vou dizer que das outras vezes não foi bom. Pra ser bem sincera, foi incrivelmente maravilhoso. Mas é que dessa vez, as coisas precisavam acontecer de um jeito diferente. Eu queria algo diferente. Meu corpo pedia por mais ternura do que devassidão.

E assim, como numa estreia de um novo capítulo do nosso livro, deixamos de lado, naquele dia, nossos personagens mais selvagens, permitindo que aflorasse entre a gente, ao invés de um prazer efêmero, os mais bonitos sentimentos. Posso afirmar, inclusive, que essa foi a primeira vez que fizemos “AMOR” de verdade.  E, apesar de esse ter sido o dia em que nos tocamos com menos intensidade, esse foi, indubitavelmente, nosso encontro mais intenso. Aliás, “intensidade”, não tem nada a ver com ferocidade. Intensidade tem uma ligação direta com a magnitude com que fundimos nossa alma com a de outro alguém. Ali, eu tive certeza: sobre nós dois, ninguém nunca vai saber de tudo.

Debaixo dos lençóis, ele movia, com sutileza, seu corpo quente sobre o meu, e me encarava de um jeito quase inocente. Ele carregava uma doçura no olhar que só é perceptível quando alguém se doa dessa maneira. Ainda assim, eu podia sentir que ele tinha algo importante pra me falar – mas, por algum motivo, ele resistia.

— Você quer me dizer alguma coisa? – indaguei com a voz embargada e tomada por uma avalanche de novas emoções.

Ele hesitou, talvez por estar apavorado com a minha possível reação. Essa hesitação durou uns dois ou três segundos, mas sinto que, pra ele, foi como se tivesse durado uma longa eternidade.

— Diga pra mim, eu quero ouvir. – repeti, após gemer em seu ouvido.

— Eu… Eu te amo. – ele disse, pausadamente, num sussurro ofegante.

Não posso mentir, aquilo me pegou de surpresa. Aliás, o máximo que eu esperava ouvir, era a confirmação de que ele estava apaixonado por mim, — o que, de fato, já seria um grande avanço. Mas quem imaginaria que ele seria o primeiro a dizer que amava? Meus olhos se encheram d’água ao processar tal revelação. Ele percebeu. Eu sorri, sem jeito. Ele, por um instante, demonstrou em sua expressão o receio de não ser correspondido. Mas eu não conseguia dizer uma palavra sequer. O fato é que, apesar de ter consciência de que eu também o amava de um jeito que nunca imaginei ser possível, eu não me sentia pronta para confessar aquele sentimento. Quem diria… Logo eu, a Rainha dos Sentimentos Explícitos, estava com medo de abrir meu coração. Naquele momento, tudo o que eu mais queria era que ele interpretasse da maneira correta o meu silêncio.

Por fim, olhando nos seus olhos e selando com um beijo, o nosso maior – e mais perigoso – segredo, eu, enfim, falei, como se tivesse chegado a uma incrível conclusão: 

— Se isso não for amor, eu não sei o que mais poderá ser.

 

 

Camila Barretto.

“Este texto faz parte da 2ª edição do Desafio das Palavras (Camila Barretto x Giulia Christy) – um jogo proposto com o objetivo de versar sobre temas vindos de fora pra dentro; inspirar-se ao contrário. Duas escritoras, cada uma com seu olhar sobre o tema/título.”