Vejo que o seu olhar é um ticket promocional para a terra das fantasias, um ingresso de acesso rápido para apenas alguns dias de entretenimento. Vejo que você quer se vender como uma atração de momento, e, com aquele seu olhar irresistível, sempre consegue bater suas metas de vendas. Você bateu sua meta comigo. Eu só queria saber se do seu parque de diversões perigoso, eu fui a menina mais inocente. 

Eu admito. Eu não sou fã de parques de diversões como você imagina — talvez porque eu ainda tenha medo de muitas coisas que, para algumas pessoas aventureiras, parecem ser tão emocionantes. Eu admito que tenho pavor de altura, de velocidade e de escuro. Só de pensar em enfrentar essa tríade, já sinto um frio correr pela espinha. Talvez seja esse o motivo de eu não achar tão divertido aqueles brinquedos insanos; vai ver é por isso que eu ainda morra de medo de me deparar com seu olhar traiçoeiro de novo. Seu olhar, me deixa apavorada, porque faz de mim mais vulnerável que de costume.

Seu olhar tem muito a ver com a excitação de entrar no melhor parque de diversões do mundo, daqueles que dá pra se perder fácil e se encantar pelos detalhes — e acho que você bem sabe disso. Se não soubesse, duvido que teria usado seu olhar fatal pra me vender o ingresso de acesso a sua vida, acesso que teria, contudo, uma ínfima duração. Eu, amante de novas experiências, acabei esquecendo o preço e terminei pagando caro para usufruir de uma alegria por tão pouco tempo.

Lembro do dia em que fiquei admirada com tantas possibilidades. Seus olhos coloridos chamaram logo atenção, logo no portão de entrada. Tão fascinantes como as luzes que piscam ao redor de um carrossel inofensivo, suas cores foram seu melhor cartão de visita, e fisgaram minha atenção ingênua desde a primeira vez em que te vi tão perto, olho no olho. Diante de você, perdi a conta de como me senti uma criança de cinco anos.

Mas, o que eu não sabia é que as regras do seu parque estavam ali, em letras miúdas, disfarçadas em suas obscuras pretensões. Nas suas regras quase ilegíveis, estava escrito que adentrar no seu íntimo era um desejo impraticável. Não foi diferente com aquela menina que se perdeu nos seus olhos anos atrás. Não foi diferente comigo. Quando me vi, estava sozinha, brincando com fogo em sua montanha-russa de sentimentos, e era tarde demais para pedir pra ir embora.

No meio de tantos atributos, de tantos brinquedos e novidades, a atração me colocou, frente a frente, com meus medos mais infantis. Me fez encarar o medo de altura, naquela vez em que você me fitou calado e eu me vi caindo a mil metros do chão. Me fez sentir na pele o medo da velocidade, naquele instante em que você me olhou de canto, e eu me senti entregue a você, rápido demais. Estava tudo sob controle, até que, seu olhar traiu nossa sinceridade prometida, naquela noite em que você me esqueceu em seu parque sombrio. Apagou as luzes. Fiquei perdida no seu labirinto. Foi aí que eu relembrei como é ruim ter que enfrentar sozinha a escuridão, como é difícil esquecer meu medo do escuro.

Depois de você, descobri que lutar contra alguns dos meus temores pode até ser revigorante no início, pois dá aquele frio na barriga e uma sensação de audácia e perigo. Mas sempre que você me deixar brincar em seus olhos bonitos, estarei sujeita ao seu apagar de luzes repentino, na melhor parte da minha diversão. Ainda não me acostumei com o seu dá e toma. E nem sei se quero me acostumar um dia. Vai ver é por isso que eu ainda morra de medo de me deparar com seu olhar traiçoeiro de novo.

Camila Barretto.

— Desafio das Palavras (a versão dela)

Paulino x Camila Barretto

“Desafio das palavras” é um jogo proposto com o objetivo de versar sobre temas vindos de fora pra dentro; inspirar-se ao contrário. Dois poetas, cada um com seu olhar sobre o tema/título