Era quase meio-dia quando a última aula da faculdade acabou. Ricardo* apareceu, de repente, no portão de saída, dizendo que iria me levar pra almoçar. Me deu um beijo no rosto, e disse que queria me fazer uma surpresa.

— Pena que você não está usando salto. — ele observou, enquanto segurava firme minha mão e atravessávamos a rua.

— Mas eu nem sabia que você viria me buscar. — olhei para os meus pés, um pouco constrangida e até me sentindo um tanto inadequada com aquela roupa.

No fundo, eu achava estranha essa fixação de Ricardo* por salto alto, pois mesmo explicando a ele que eu não estava acostumada a usar, ele sempre insistia. Ainda me lembro, nitidamente, do dia em que ele se negou a ir à padaria comigo (sim, à padaria!), se eu não trocasse de sandália, bem como, das inúmeras vezes em que ele ficava me comparando com outras mulheres na rua, dizendo que, com dez centímetros a mais, elas ficavam muito mais atraentes. Às vezes, ele falava sério. Às vezes, abria um sorriso. E eu, achando que era uma ótima piada, tentava me convencer de como ele era engraçado. Ele dizia que o salto alto disfarçava minha “cara de menina”, algo que, de fato, eu ainda era naquela época. Eu tinha dezoito anos e ainda não tinha uma vida sexual ativa, muito menos, iniciada. E foi naquele dia em que Ricardo* me buscou na porta da faculdade, que aconteceu. De um jeito que nunca poderei me esquecer, eu me tornei uma mulher.

Curiosa pelo nosso destino final, o acompanhei até o ponto para pegarmos um ônibus em direção ao Centro. Descemos numa rua deserta e entramos num estabelecimento simples, onde alguns homens de meia-idade bebiam a décima cerveja, e observavam o escasso movimento do local. O suposto restaurante mais parecia um botequim de esquina e confesso que, por um momento, senti uma pontinha de frustração ao imaginar que, por se tratar de uma surpresa, ele me levaria para algum lugar de frente para o mar, como tantas vezes eu havia pedido. Nítido engano. Tentando disfarçar os olhares incômodos daqueles caras e a grande fome que já me consumia, puxei uma cadeira pra sentar, enquanto Ricardo* adentrou o estabelecimento pra falar com a atendente. Alguns segundos de conversa se passaram, e eu percebi o quanto Ricardo* já parecia íntimo daquele lugar e das pessoas que ali trabalhavam. De repente, ele fez um sinal de longe e me chamou, o que, na ocasião, foi um grande alívio. Ao me levantar da cadeira, pude ouvir sorrisinhos de deboche vindos da mesa ao lado.

— Vamos almoçar lá em cima. — ele falou, convicto, me puxando pela mão.

Enquanto eu subia as escadas, me esbarrei com uma mulher de uniforme, que também me encarou de um jeito estranho e inquisitivo, se perguntando, talvez, se eu tinha idade suficiente para estar ali. Já no último degrau, para a minha súbita decepção, a visão que eu tive não foi das melhores. Não havia outras mesas e cadeiras pra sentar. Não havia nenhuma garçonete, nem outras pessoas circulando. Só havia um grande corredor vazio e cheio de portas fechadas. Cada porta tinha um número e, de repente, percebi que na mão de Ricardo* havia uma chave. Quarto nº 13. Demorei um pouco para assimilar em que lugar, realmente, nós estávamos. Era um motel, sem dúvidas. Eu já tinha ouvido falar. Eu, aliás, já tinha passado pela frente de vários, mas nunca tive a oportunidade (ou quem sabe, a curiosidade) de entrar. E aquela tarde, pra mim, não parecia o momento mais oportuno para experimentar, pela primeira vez, algo assim.

— Tem certeza que nós vamos almoçar aqui? — eu perguntei, tentando disfarçar minha voz engasgada.

— Isso, minha princesa. — ele respondeu, calmamente, enquanto girava a maçaneta da porta. — Reservei esse quarto pra gente almoçar mais à vontade. Não tem problema pra você, não é?

Balancei a cabeça em sinal negativo, mesmo sem saber que os motéis poderiam servir almoço nos quartos. De algum jeito, eu estava me sentindo enganada.

Ricardo* era apenas quatro anos mais velho que eu, mas carregava consigo um ar de homem experiente. Sempre que eu tentava me esquivar dos seus convites, seu discurso era invariavelmente o mesmo, como quem já tivesse vivenciado, dezenas de vezes, a mesma cena: “assim que acontecer a primeira vez, você vai ver o quanto perdeu tempo. Você vai ver como depois, tudo ficará mais fácil.” Tudo. Ficará. Mais. Fácil. Desde o início do relacionamento, essas palavras martelavam na minha cabeça. Não eram poucos os momentos em que eu me sentia um objeto na mão do meu próprio namorado, mas não sei por qual motivo eu demorei a entender a minha condição. Eu estava muito apaixonada por ele, obviamente. Mas, devo dizer que mesmo apaixonada, eu me sentia uma embalagem cujo lacre deveria ser rompido, o quanto antes, só para facilitar seu uso quando ele bem quisesse e tivesse vontade. E hoje, eu percebo: de algum jeito, eu permiti que ele violasse meu corpo. Ou pior, eu permiti que ele violasse as minhas convicções.

Não sei por quanto tempo permanecemos naquele quarto, mas tenho certeza que ele não gastou comigo mais de cinquenta reais. Contudo, mesmo que o investimento fosse alto, nada pagaria ou apagaria o que aconteceu nas horas seguintes. O lugar era pequeno, frio, cheirava à desinfetante de pinho e era cercado por paredes brancas. Não foi difícil me sentir num frigorífico, ou num lugar triste onde o gado fica à espera do abate. Quantas mulheres ele já deveria ter levado naquele lugar? Quantas teriam ido por livre e espontânea vontade? Será que eu fui a única a me sentir assim: deslocada e inexplicavelmente melancólica, feito gado prestes a morrer? Meu olhar, discretamente, continuava a percorrer aquele gélido matadouro: o banheiro seguia o mesmo padrão; era minúsculo e sem qualquer ventilação. A janela ao lado da cama, além de não ter cortina, ostentava um imenso vidro quebrado. A luz vibrante da tarde invadia, bruscamente, cada parede daquele cômodo e despedaçava toda a cena romântica que um dia eu criei em minha mente. Naquela tarde, eu joguei fora a utopia de que minha primeira vez seria num ambiente íntimo, à luz de velas e com uma música sensual de fundo. Na parede, uma televisão acabava de completar o cenário perfeito da minha desilusão: em quatorze polegadas e num volume gritante, Ricardo* assistia a uma cena clichê, onde duas mulheres loiras e de seios avantajados gemiam, como loucas, e pediam para que um homem gozasse em suas bocas. Confesso que, apesar de tudo, eu me senti imersa em uma situação um tanto mecânica, quase protocolar. Lembro-me de ter ido até o banheiro pra tirar minha calça jeans, e ao voltar, de já ter me deparado com Ricardo* sem qualquer peça de roupa, se masturbando em cima da cama. Eu nunca tinha visto um homem completamente nu, mas, de toda maneira, eu tentei fazer daquela situação algo mais natural e corriqueiro possível. Percebendo o meu explícito desconforto, ele tentou me convencer que aquilo era para o bem do nosso relacionamento e que o filme pornô que estava passando deveria servir de inspiração ao que deveríamos fazer nas próximas horas. Lembrou-me de que não teríamos momento melhor para ficarmos a sós. Pediu pra esquecer meu medo e para “facilitar as coisas” ao invés de ficar “inventando desculpas”. Enquanto, de um lado, eu me mostrava pouco à vontade, — inclusive com o meu próprio corpo — ele, pouco demonstrava interesse em escutar minhas preferências ou preocupações.

Tentando esquecer onde eu estava, fechei os olhos e lhe dei um beijo tímido. E outro. E mais um. Num curto intervalo de tempo, aqueles beijos sem qualquer tesão explosivo, evoluíram para dois corpos entrelaçados numa cama, tentando engatilhar, a todo custo, uma relação sexual aparentemente, consensual. Uma relação desprovida de quaisquer preliminares. Uma relação sem intimidade suficiente e sem o sabor agudo do desejo. Éramos uma massa de corpos quase anônimos, sem nenhum sentimento sobressalente, a não ser a dúvida e o acanhamento da minha parte. Já da parte dele, existia um único objetivo a ser cumprido: tornar as coisas mais fáceis dali em diante. Eu gemia de dor, e ele parecia gostar disso. E eu que quase acreditei que aquilo que estávamos fazendo era “amor”, hoje tenho certeza que, na verdade, era abuso. Eu estava sendo abusada pelo meu próprio namorado. De várias formas. E há muito tempo.

— Está doendo muito. Eu não quero continuar. — balbuciei, sem conseguir olhá-lo nos olhos.

— É só você relaxar, gata. Já te disse. — ele repetia, como se a total responsabilidade de não estar sentindo prazer fosse minha.

— Eu não quero fazer mais isso. — insisti, tentando esquivar meu corpo daquela desagradável posição. Seu peso estava me sufocando.

— Não me desaponte de novo. Aguente só mais um pouco. — ele resmungou, pressionando, ainda mais, seu corpo sobre meu.

— Pare, eu quero ir embora. Por favor…

Aquela situação durou infinitos e agonizantes segundos. Ele permaneceu em silêncio, arfando ao pé do meu ouvido, enquanto seu corpo continuava tentando, sem sucesso, me penetrar de forma mais profunda. Eu não conseguia facilitar sua entrada. Eu estava tensa demais pra isso. O consenso, aparentemente existente no início dos meus beijos, se esvaiu a partir do momento em que ele persistiu em continuar em cima de mim. Me forçando. Me prendendo. Apertando meu pulso. E ignorando meu pedido pra parar. No meu ouvido, ele repetia: “agora você vai ter que esperar até eu gozar”, quando, num impulso, me virou de bruços e chegou a me penetrar, de só uma vez, por trás. E na selvageria daquele sexo anal, realizado tal como num contrato unilateral em que só ele foi capaz de ler e rubricar todas as vias, ele gozou dentro de mim. Ele ignorou minha dor, e quiçá, minha ausência de prazer. Percebendo que aquilo já tinha sido desgastante demais, eu o empurrei, com todas as minhas forças, o mais longe possível. Quase caindo no chão, ele me olhou furioso, sem acreditar no que eu tinha acabado de fazer. Exausta, me sentei na beira da cama e notei vestígios de sangue no lençol amarrotado. Sangue que bem poderia ter sido de uma guerra travada nas entranhas de uma mata virgem, a qual tinha acabado de ser impiedosamente atacada. Cruelmente explorada. Repentinamente invadida por um exército de um homem só. Eu não estava me sentindo bem. Eu estava me sentindo bastante machucada — por fora e, principalmente, por dentro.

— Eu quero ir embora! — repeti, dessa vez, choramingando.

Enquanto vestia suas roupas, ele me encarava de maneira fria e sem qualquer compaixão, e a única coisa insana que conseguiu falar foi que só chegamos àquele ponto extremo porque eu “não colaborei o bastante”, e que se ele arranjasse outra mulher para suprir sua carência, seria, tão somente, minha responsabilidade.

Ali, eu decretei mentalmente: o nosso namoro havia chegado ao fim.

No mesmo fim de tarde, Ricardo* ainda insistiu em me deixar em casa. Pra não criar alarde, aceitei, mas fomos o caminho todo em completo silêncio. Ao encontrar meus pais na sala de estar, fingi um doloroso sorriso e disfarcei meu enorme cansaço. Naquele momento, compartilhar aquela história seria difícil demais pra mim. Por isso, preferi sustentar o teatro de que não estava me sentindo bem e que iria dormir mais cedo. Fui direto tomar um banho, para tirar aquele cheiro azedo de derrota do meu corpo, e pra acabar de chorar todas as lágrimas que eu tinha prendido. Foi ali, debaixo do chuveiro da minha casa, que eu acabei de “terminar o serviço” que Ricardo* começou. Eu me prometi que não deixaria mais ninguém tocar em meu corpo daquele jeito, e que a única pessoa responsável pela perda da minha virgindade, seria eu. Ninguém mais. À mais ninguém eu daria essa liberdade ou quem sabe, esse prêmio de consolação. Resolvi, então, usar meu próprio dedo como melhor arma branca. Naquele momento de impulso, eu não estava buscando prazer. Eu não estava explorando meu corpo. Naquele momento, eu só queria me livrar do sentimento de culpa e daquela barreira de pele que eu julgava ainda existir, desnecessariamente, dentro de mim. Me agachei no chão, e, tomada de coragem, usei dois dedos para me invadir de uma vez e com força. Não vou dizer que não senti dor. Doeu como um golpe de faca afiada. Mas não foi tão ruim quanto me lembrar de que, há poucas horas, Ricardo* pressionava seu corpo contra o meu, me forçando a receber seu maldito gozo, e a engolir meu choro e toda aquela situação lastimável. Não doeu tanto quanto o nó na garganta que eu senti (e ainda sinto) ao me lembrar da sua postura tão egoísta e invasiva. Assim, como se eu tivesse rompendo uma fina camada de um casulo, eu tive a plena certeza: a partir daquele instante, eu não era mais uma menina, mas sim, uma mulher. Uma mulher em contínua formação. A partir daquele instante, chegava ao fim, o meu martírio. Chegava ao fim, até a paixão que eu sentia por Ricardo*. Bastava apenas esperar meu sangue escorrer pelas minhas pernas até desaparecer ralo abaixo, junto com as minhas lágrimas e com o resto da minha autoestima despedaçada. Autoestima que eu demorei algum tempo para reconstruir e que foi indispensável para eu me tornar a pessoa que sou hoje.

Por Ricardo*, só sobrou, enfim, o asco, o nojo e a aversão.

Dez anos se passaram, mas contar essa história ainda me machuca. Ela é como uma ferida mal-curada, que ainda evito tocar. Os acontecimentos do Quarto nº 13 foram apenas o estopim para eu iniciar o meu processo de autoconhecimento, e certamente, eles só integraram a ponta de um iceberg muito mais profundo. Felizmente, eu escapei sem muitos danos, e com o tempo, fui reconstruindo, em silêncio, e da melhor maneira possível, o que aquele término repentino destruiu em mim. Um relacionamento abusivo, muitas vezes, nos cega e nos rouba a voz. Nos faz esconder casos como esse, por medo ou por vergonha de não sermos compreendidos. Quantos “Ricardos” não existem por aí? Quantas mulheres (e meninas) não passaram por situações semelhantes? E quantas outras não se consideram “boas de cama” por algum trauma do passado? Quantas pararam no tempo e não se permitiram se conhecer, se reinventar e se redescobrir, a cada dia, em uma nova versão? Dez anos se passaram e eu me sinto feliz por, nos últimos anos, ter experimentado muitos orgasmos intensos e novos amores regados à respeito e à paixão. Me sinto agradecida por ter renascido e por ter me realizado, tantas vezes, seja na vida afetiva ou na cama. Eu tive a sorte de perceber, a tempo, que o problema de tudo não foi aquele quarto de motel barato. O problema foi a pessoa que estava comigo. O problema foi eu não ter entendido, muito mais cedo, que eu estava com a pessoa errada. E que eu estava errada em aceitar tudo isso. Calada.

Hoje, finalmente, meu silêncio acabou.

(Mila Barretto)