Ela nasceu pequena, em mil novecentos e noventa. Cresceu no amor e virou mulher e, não resta dúvida de que se tornará uma nova mulher a cada dia. Igualmente, não há dúvida alguma do seu certeiro fim. A morte chega para todos, e é bom que seja assim.

Prepare-se. É sobre o sentido da vida que vou falar agora. Sobre um sentido representado pelas três mais difíceis palavras de se escolher, dentre tantas outras no dicionário da minha memória comprida. Nascer. Crescer. Morrer. Palavras tão corriqueiras nas ciências da vida, mas que emprego agora, no sentido não-literal, já que, para entender o sentido de tudo que vou dizer, metáforas são mais que indispensáveis. A vida, per si, é uma grande metáfora da nossa essência.

Nascemos de novo a cada dia em que mudamos: de endereço, de roupa, de amores. Nascemos outra vez, milhares de vezes em nossa existência. Tenho certeza que isso não acontece só comigo. O primeiro ato (biológico) é involuntário, mas do segundo em diante, depende muito mais das nossas escolhas e percepções. Devemos nos permitir ver e vir ao mundo, devemos pedir para nascer se quisermos seguir em frente. Quando criamos novas versões de nós mesmos, acontece o nosso re-nascimento. Mudar a forma de pensar, recriar laços desfeitos, dar uma nova chance para um alguém já esquecido. Isso é nascer. E isso pode ser maravilhoso ou doloroso, a depender do dia e da pessoa que nasceu, neste mesmo momento, contigo.

Quem nasce, cresce – e quem cresce, precisa amadurecer. Pelo menos, é assim que deveria ser, a não ser que algum indivíduo se deixe atrofiar em sua própria raiz do crescimento. Quando cresci, percebi que sou demais pra mim e não caibo em meus sapatos, minha pele, meu casulo. Me deparei com meus próprios dilemas e crises, e às vezes, de tanto que cresci, quando me olhei no espelho nem reconheci o reflexo de mim. Chorei por ter mudado, apesar de ainda ser eu. Crescer é bom, mas dá medo. Dói. Aperta tudo. Mas é crucial para definir quem somos e o que seremos adiante. Crescer deixa saudade. É como se fosse o primeiro beijo. No meu caso, uma tragédia à parte que integrou o ciclo das outras delícias que estavam por vir.

E aí, chega o fim. Ou o início, outra vez. A morte bate em sua porta, e aí, você não vai abrir? Devemos morrer pra nascer, você bem deve saber disso. Tem gente que passa a vida inteira fugindo da morte. Prefere estacionar no ciclo do crescimento, crescendo infinitamente para o além, e, assim, só nasce mesmo uma vez. Só vive uma vez. Só ama uma vez. Tudo bem, não vou dizer que tá ruim assim, pois quem teve uma vida já é um bom começo de conversa. Mas quem morre mais de uma vez, tem mais chance de ser imortal. Viverá pra sempre em muitas histórias sem fim, encerrará ciclos de sentimentos. Achará o sentido, como eu encontrei.

Pois é. Achar o sentido da vida tem a ver com olhar pra dentro. Precisei nascer, crescer e morrer pra escrever estas linhas. Deu trabalho, deu cansaço, mas enfim, consegui.

Camila Barretto.

Desafio das Palavras (a versão dela)

 Paulino Solti x Camila Barretto

“Desafio das palavras” é um jogo proposto com o objetivo de versar sobre temas vindos de fora pra dentro; inspirar-se ao contrário. Dois poetas, cada um com seu olhar sobre o tema/título.