No capítulo primeiro, éramos vistos como um modelo ideal a ser seguido. O nosso nome estava na coluna inicial da lista, sempre que o tema sugerido era: casal apaixonado. Nós causamos inveja para os que nos avistavam de longe, e os mais próximos desejavam fazer parte da narrativa. Queriam contribuir de alguma maneira, chegar junto, porque a cumplicidade existente os contaminavam. Dá orgulho de contar o nosso prefácio. Por mim, moraria nele. No entanto, ainda tem muita coisa pela frente. Vamos adiante.

No capítulo segundo, nem tudo era tão bom como no anterior. Já tínhamos intimidade suficiente para expor os defeitos dos efeitos da nossa convivência. As discussões iam ganhando espaço, onde antes ocupava a compreensão, a escuta, o discernimento. Aqui, desviávamos das opiniões que não nos agradavam e esperneávamos feito crianças para encontrarmos o denominador comum, que até hoje, se perdeu por aí. Faltou flexibilidade, faltou, talvez, o ato de invertemos os papéis, de nos colocarmos um no lugar do outro. Desafio: essa passou a ser a palavra-chave da nossa relação.

No capítulo terceiro, mesmo com as adversidades vindo em nossa direção, fomos firmes e quase sem forças, sugerimos ser a própria fortaleza. Deste modo, o manuscrito ia ganhando forma, identidade, o destino estava se alinhando, cumprindo o que prometera. De um jeito surpreendente, interpretamos que essa história tinha que continuar. Então, seguramos as pontas de cada parte da obra e seguimos, inseguros, esperançosos, apreensivos, tementes e com muitas vírgulas. De acordo como a nossa análise, a leitura era legível: não era hora do ponto final.

No capítulo quarto, lembrei dos bons momentos e foram eles que me fizeram refletir sobre nós. Criei um apego pela bela história que tinha sido escrita à mão, com detalhes que só nós somos capazes de interpretar. Rasguei algumas folhas das falhas cometidas, amassei outras na intenção de esquecer os parágrafos tristes que nos separavam das melhores descobertas já vividas. Risquei,  ainda,  outras que não acrescentariam em nada, usei como rascunho as experiências ruins que serviram como aprendizado. Grifei com muito carinho tudo que nos tornou pessoas melhores e, aos meus moldes, repassei para o papel na tentativa de recomeço. Voltei à página 1.

No capítulo quinto, ouvia constantemente as pessoas dizerem: “Uma folha em branco é a oportunidade nova de fazer diferente.” Segui fielmente essa oração e cheguei a clamar para que nela, Deus me ouvisse. Essa dinâmica funcionou, mas foi por pouco tempo. Logo voltamos aos desentendimentos e desgaste emocional. Nos ferimos, nos frustramos. Depois de usar as ferramentas que estavam ao meu alcance e muito insistir, confesso que pensei em virar a página, fugir do término, mas a minha melhor opção foi trocar o livro. Tenho a certeza de que não muito distante, encontrarei outra história me aguardando para ser escrita, lida e por que não dizer, linda?!

Giulia Christy (escritor parceiro)

“Este texto faz parte da 2ª edição do Desafio das Palavras (Camila Barretto x Giulia Christy) – um jogo proposto com o objetivo de versar sobre temas vindos de fora pra dentro; inspirar-se ao contrário. Duas escritoras, cada uma com seu olhar sobre o tema/título.”