No nosso romance, resta apenas uma folha. Uma única folha derradeira que pode definir o que seremos adiante. Até pensei em virar a página, mas tenho medo do que pode estar escrito. Medo, não. Tenho pavor da certeza obscura que carrego. Eu tenho certeza que vou chorar decepcionada com cada palavra escolhida pelo destino. Vou me machucar profundamente, mas a dor será tão fina como um corte de papel na mão. É uma dor pequena aos olhos alheios, mas que latejará no peito de um jeito muito intenso. Já sinto uma arrepio na espinha. Será fratura exposta, com aparência de arranhão.

Não estou pronta pra isso. Não ainda. Então, devolvo nossa história pra o fundo da estante. Evito a leitura de uma página estranha. Evito o choro. Evito a dor. E o recomeço. É verdade que tem história que, desde o início, já nos alerta pra um grande risco de decepção. Que, nas entrelinhas, já carrega spoilers do infortúnio em avançar pros próximos capítulos. Mas, insistimos, e apesar de tudo, resistimos em buscar o novo. Personagens confusos, nos fazem embaraçar o mundo real com a ficção. São parágrafos emocionalmente extensos nos esgotam, nos roubam forças, e nos fazem desejar, desesperadamente, investir num novo estilo de escrita. São histórias complexas que, simplesmente, abandonamos por medo de chegarmos ao fim.

Eu preciso de um livro mais simples que devolva minhas noites de sono. Um livro, mais leve, que acalme as minhas emoções. Necessito de um livro, nem que seja de autoajuda, contanto que me fale de superação e que me toque como nenhum outro conseguiu. É preciso muita audácia para abandonar uma velha história interminável e se entregar a um novo enredo. É necessária muita força de vontade pra ler cada trecho em um novo papel. Cada palavra é importante. Cada linha. Parágrafo. Nota de rodapé escondida. Só estou criando coragem para abri-lo, pois, se é para lê-lo com compromisso, preciso ir até o fim.

 

 

“Pensei em virar a página, mas foi melhor trocar o livro.” — espero daqui há um ano, dizer essa frase em voz alta, e com grande convicção.

 

Camila Barretto.