Deitei sob o peito dele, enquanto ele acariciava, com as pontas dos dedos, minhas costas já despidas. Nos entreolhamos por um breve instante, fazendo aquele momento de intimidade parecer o último entre a gente. E talvez fosse. Aquilo que sentimos desde o primeiro dia em que nos olhamos acanhados, transformou-se, com o nosso enlaçar de dedos, em algo só nosso. Algo estranho, mas particularmente sincero. Era como se naquele entardecer tudo voltasse a ser como antes. Ou, ainda mais: era como se a gente se conhecesse desde sempre. Suas mãos quentes ainda estavam passeando pelo meu corpo, quando, finalmente, quebrei o silêncio e o indaguei com um tom impreciso:

— Se você já sabe que não vamos dar certo, por que estamos fazendo isso de novo?

Ele desviou o rosto, e quase sem conseguir me olhar de volta nos olhos, se esforçou em me dar alguma resposta coerente. Ficou mudo. Como dizer que se gosta de alguém, mas que tem medo de se apegar demais? Como explicar um querer tão contraditório? Infelizmente, só ele tem essas respostas.

A luz que clareava aquele quarto era fraca e sem brilho, mas ainda permitia ver uma ponta de tristeza disfarçada em seus lábios cerrados. Certamente, ele também reparou em meu olhar melancólico, feito aquele que as pessoas dão quando estão perdendo algo que nunca as pertenceu por inteiro.

— Por que estamos fazendo isso? — Repeti, quase choramingando por uma explicação.

— Não sei explicar direito. – Disse ele, finalmente, inclinando o tronco esculpido em minha direção. — É que toda vez que eu te encontro, tudo renasce em mim. É mais forte que eu. Eu tenho que me segurar para não te arrancar um beijo. – Não satisfeito em encerrar por ali, ele continuou a falar, enquanto colocava uma mecha de cabelo atrás da minha orelha: — Contudo, quando estou longe de você, prefiro que a gente permaneça assim: distante. Me sinto melhor quando estamos afastados.

Doeu ouvir aquilo. Doeu como um tiro de verdade que nunca levei. Com um leve sorriso forçado, repeti esse mantra por dentro: Ele. Prefere. Ficar. Distante. Aceite isso.

Meu coração tão forte e corajoso, na mesma hora, se transformou em uma bolha de sabão. Frágil, prestes a estourar com qualquer palavra perfurante que ele pudesse falar a qualquer momento. Policromático, feito uma mistura de sentimentos condensados. Transparente, como todas as vezes em que fico quando estou vulnerável. Indubitavelmente, existia uma bolha  instável e vulnerável flutuando no meu peito, no lugar onde deveria estar batendo o meu forte coração.

Inibindo qualquer resquício de lágrima nos olhos, rebati: — Estranho. Comigo acontece justamente o contrário. Quando não te vejo, sinto sua falta, mas quando nos esbarramos por aí, confesso que eu prefiro nem mesmo ter te encontrado. Não gosto de encontrar com você. — Após dizer isso com um tom de voz quase heroico, me calei. Me calei pra me sentir menos quebradiça. Omiti verdades para voltar a ficar em posição de equidade. Mas, lá dentro, me senti um lixo. Me senti o copo descartável que ele usou pra beber um vinho barato com uma outra qualquer.

Ele pareceu satisfeito com minha ponderação e com minha cara aparentemente despreocupada. Pareceu surpreso também, pelo fato de eu, hipoteticamente, não ficar tão eufórica com nossos encontros ocorridos por mera coincidência. Ele preferiu acreditar no meu teatro do “desapego” para se sentir livre, menos cobrado. Talvez ele esperasse que eu dissesse algo diferente, algo exagerado do tipo: quando te vejo, fico sem ar. No fundo, até que ele estava certo. Enquanto ele engolia satisfeito minha grande omissão, eu estava engasgada com aquilo. Ele beijava meu pescoço e eu só podia pensar na ausência de ar que ele me causaria depois do seu “a gente se fala”. Voltei para casa com esse sufoco na garganta. No dia seguinte, acordei do mesmo jeito.

Minha necessidade de parecer mais forte, não me permitiu concluir o raciocínio no momento em que tentei expor o meu lado da história. Não me permitiu ser tão verdadeira como gosto. O fato é que toda vez que eu encontro com ele, o clima muda, tudo fica fora de órbita. Eu sei que ele sente o mesmo, a diferença é que ele tem medo da gente. Independente de ser de surpresa ou com hora marcada, eu gosto, eu adoro, eu amo poder matar um porcento da minha vontade de tê-lo comigo. Sim, me falta o ar. Meus olhos saltitam, meu lado oculto escancara um sorriso, mas eu não demonstro estar me derretendo por dentro. Entre risos e suspiros inevitáveis, eu me contenho. Não revelo um grama do que sinto porque, evidentemente, tenho a necessidade de parecer mais forte, só para não assustá-lo. E é por este motivo, que mesmo amando, eu odeio encontrar com ele.

Talvez, por detrás da minha força forjada, ele nunca descubra toda a minha dependência. Por isso, apesar de sentir tanta falta, eu continue o evitando. Me arrepio só de pensar em conviver com seu doloroso sumiço após cada despedida, com a lembrança dos seus dedos deslizando em minhas costas nuas, sem saber se um dia eu deitarei em seu peito outra vez.

Após um triste silêncio, nos entreolhamos por um breve instante, fazendo aquele momento de intimidade parecer o último entre a gente. E talvez fosse. Se me perguntarem um dia, por que depois de tudo isso, eu ainda aceitei me encontrar com ele de novo, eu direi: pergunte a ele.

Ele é o responsável pelas respostas e perguntas da minha vida nos últimos tempos.

 

Camila Barretto.

Desafio das Palavras (a versão dela)

Paulino x Camila Barretto
“Desafio das palavras” é um jogo proposto com o objetivo de versar sobre temas vindos de fora pra dentro; inspirar-se ao contrário. Dois poetas, cada um com seu olhar sobre o tema/título”.