“Como um cavalo teimoso, o meu cérebro, mais do que nunca, mostrava-se autossuficiente em suas decisões (…) Senti que ali, a minha vulnerabilidade aproximava-se do limite. Descobri-me como mulher e, antes de tudo, como ser humano.” (Trecho do texto Crônicas de Abril)

O trecho que destaquei acima resume muito do que tenho pra dizer agora. Ele é parte de uma crônica que eu costumo apelidar de “divisor de águas”.

Confesso que antes de escrevê-la, eu era dessas que se negava coisas mínimas: desde não trocar uma hora de estudo por um tempinho a mais de sono, ou de não experimentar um corte de cabelo mais curto por puro medo de ser criticada. Eu era mais medo que convicção. Do meu jeito sutil e reservado, me sentia a dona da razão, a moça certinha e a aluna mais dedicada, mas isso ficou parcialmente enterrado naquele fatídico ano que já passou. A menina, enfim, virou a esquina da maturidade.

De repente, afrouxei minha austeridade e parei de me punir tanto com o “não”, quase sempre, desproporcional ao caso. Hoje eu já entendo que a verdade pouco me pertence, e que não dá pra andar tanto na linha quando aceitamos nos equilibrar no limite tênue do nosso próprio livre-arbítrio. Dizer “sim” é, basicamente, isso. É descobrir que o “não” às vezes é uma omissão em busca da comodidade. É aceitar que o atendimento dos nossos desejos, pode nos tirar dos eixos rígidos que criamos, e que, mais cedo ou mais tarde, nossos padrões preestabelecidos serão modificados.

Dizer “sim” é entender que precisamos aprender a lidar com os riscos de nos permitir. É claro que antes, eu experimentava da doce liberdade de ser quem eu sou, mas parece que naquela época, tudo funcionava às escondidas, em doses homeopáticas quase que imperceptíveis. Eu camuflava no fundo de mim o meu próprio eu, até que um dia, eu me aceitei em voz alta, de frente pro espelho. E vou fazendo isso a cada dia que passa. Quando eu disse um “sim” pra mim, eu aceitei minhas condições. Eu descobri aquilo que sou. Hoje sou mais intensidade. Porém, muito cuidado.

Dizer “sim” é algo tão viciante quanto ter a mania de dizer apenas “não”. Torna-se um vício, especialmente quando aprendemos o quanto é bom acatar os nossos próprios anseios. É gostoso demais, é revigorante atender o nosso bel-prazer. Contudo, se o “não” constante faz de nós, indivíduos demasiadamente fechados, o “sim” nos deixa, ao mesmo tempo, livres e vulneráveis.

Foi exatamente isso que eu quis dizer no texto de alguns anos atrás, quando essa “auto-permissividade” começou. Por fim, como o doce de uma sobremesa, todo “sim” precisa ser cuidadosamente dosado. Caso contrário, ao invés de estímulo esporádico e satisfação, encontraremos nele uma dependência egoísta e difícil de ser apartada. É difícil voltar atrás, uma vez que você se acostuma com o gosto peculiar da liberdade. Liberdade essa (cumpre ressaltar), que só vale a pena sem arrependimento. Mas, nem só de sobremesa podemos matar nossa fome. E isso, meu amigo, eu ainda estou tentando aprender a cada refeição que eu faço.

Camila Barretto.