Essa noite sonhei com você.

Era final de tarde e da porta dava pra ver resquícios de um sol que acabava de se pôr. De um jeito despojado, você estava encostado numa parede de uma sala quase escura. Quando cheguei mais perto, seus braços me puxaram e envolveram meus ombros hesitantes, e eu pude sentir a palma de sua mão descendo pelas minhas costas. O seu riso de moleque arteiro logo corrompeu meu jeito de garota inocente. As pessoas passavam olhando, mas nenhum julgamento me incomodava. Apesar do medo explícito que fazia acelerar meu coração, estava mais do que evidente a nossa conexão. Meu nariz arquejava a poucos centímetros do seu rosto e seus olhos aventureiros, mergulharam de cabeça nos meus. Tenho quase certeza que depois disso nos beijamos e isso me fez esboçar um imenso sorriso. Teria certeza maior quanto aos detalhes desse beijo se tudo não tivesse passado de um sonho, em que eu acordei contra minha vontade, transbordando de angústia. E saudade.

Mas por que sentir saudade, se nada, de fato, foi real? Saudade só vale à pena se houver alguma verdade embutida. E se ela nasce, precisa ser morta através de olhares devoradores e abraços apertados, e não, padecer sozinha de tristeza dentro da gente. Matar a saudade é tão bom quanto abrir, lentamente, os olhos depois de um beijo que valeu à pena, e essa sensação não é tão boa quando se abre os olhos depois de uma noite mal dormida imersa num sonho irreal. Saudade existe pra reaproximar dois corpos depois de um intervalo de tempo distante, não para mendigar a atenção alheia, numa busca incessante pela supressão de uma falta sem data de validade.

Saudade é como se fosse uma longa viagem a um país em que não se conhece a língua. Faz bem experimentá-la de vez em quando e sentir aquele aperto gostoso no peito. Mas a graça de viajar está, justamente, na possibilidade de retornarmos ao aconchego do nosso lar. Sentir saudade sem poder matá-la é um tormento, assim como, fugir pra um país estrangeiro e nunca mais conseguir voltar pra casa. A viagem termina virando subterfúgio de guerra e o aperto gostoso se torna aflição sem fim.

Assim, a saudade que sinto de você é como viagem que não termina bem. É quase como um pesadelo no aeroporto dos meus sentimentos. É como ter as bagagens extraviadas e não ter seguro nem dinheiro, para resgatar os bens perdidos. É tipo sofrer um sequestro relâmpago na China, sem saber falar mandarim. É, ainda, correr feito um refugiado que atravessa ilegalmente as fronteiras, sem saber se será possível, um dia, regressar. Enfim, é uma saudade que não volta, que não tem porquês, e nem final feliz.

Certa vez, li numa revista que quando a saudade atinge seu ápice, o cérebro programa sonhos para aplacar a dor que nos invade. Agradeço ao cérebro por isso. Pena que ainda não podemos escolher em que noite iremos sonhar de novo. Se possível, queria sonhar todos os dias.

Camila Barretto.

Desafio das Palavras (a versão dela)

 Paulino Solti x Camila Barretto

“Desafio das palavras” é um jogo proposto com o objetivo de versar sobre temas vindos de fora pra dentro; inspirar-se ao contrário. Dois poetas, cada um com seu olhar sobre o tema/título.