Parei de contar os dias que tenho sem falar com você, como se os dias do meu calendário só valessem à pena se eu te encontrasse. Como se os dias em que passei sem você não tivessem razão, sequer, para terem existido. Parei de esperar que qualquer mensagem nova fosse sua, e de me preocupar se, por ventura, a gente se esbarrasse num desses encontros inesperados.

Os nossos encontros repentinos deixaram de me preocupar, afinal, num raio de cinquenta metros quadrados, é mais fácil me bater com um anão que mora no Alasca do que com você. Agora entendi que a probabilidade de estarmos desejando a mesma coisa é de uma em um milhão, e eu deixei de querer entender a sua estatística. Sua matemática do desapego, definitivamente, não é pra mim. Para alívio do meu coração, eu tenho parado de pensar tanto em nós dois, o que não impede, no entanto, de me lembrar de tudo, de vez em quando.

Não é porque estou parando de pensar em você, que eu deixei de lembrar da gente. Me pego pensando em seu cheiro com menos frequência, mas, se de surpresa você me liga, imediatamente me recordo do seu timbre de voz sussurrando. Não esqueço sua forma carinhosa de me dar sermão, sua preocupação em me deixar em casa. Já não desejo mais matar a fome da sua boca como antes, mas ainda lembro nossos beijos toda vez que passo perto do seu carro branco. Seria loucura dizer que você me vem na lembrança sempre que vejo um carro branco na rua? Só depois que parei pra observar que há tantos carros brancos e iguais ao seu.

Sabe, o pensamento a gente pode até disfarçar. A gente engana por entre a rotina dos estudos e das contas pra pagar. O pensamento a gente vai moldando com o tempo, e se tiver sorte, um dia a gente acorda, e nota que algo, enfim, mudou. Que tudo voltou pro seu devido lugar. A primeira pessoa que vinha em nossa mente ao abrir os olhos já não nos invade com a força de antes. A gente, enfim, se sente livre daquela perseguição de pensamentos sobrecarregados. Mas a lembrança não pode nos libertar. Ela é marca registrada no nosso passado inapagável. Ela está associada aos nossos sentidos e existe para nos mostrar que não somos soberanos de nós mesmos; e o que marcou ficará sempre com a gente.

Podemos deixar de pensar, mas não de sentir. Afinal, lembranças, na verdade, são vestígios de sentimentos – bons ou ruins – que nunca hão de desaparecer.

Camila Barretto.