Confesso, é ridículo; mas desde o início, eu sempre me senti em posição de desvantagem em relação a ele. Ou, pelo menos, quase sempre. Quase sempre, foi ele que agendou os nossos encontros. É ele que, quase sempre, está muito ocupado e demora pra responder minhas mensagens. Na maioria das vezes, é ele quem decide o melhor horário para encerrar as nossas “brincadeiras”. Exceto naqueles momentos em que eu consegui mexer com o seu psicológico e demonstrar certo desinteresse, foi ele que, quase sempre, saiu ganhando nas situações.

Pode ser impressão minha, mas, ao menos, eu sempre me sinto a mais vulnerável da estória. E, talvez, eu realmente seja.

Mas essa sensação de vulnerabilidade muda completamente quando estamos entre quatro paredes. Dentro de um quarto escuro, é visível um grande equilíbrio entre nossas vontades, e, apesar de adorar vê-lo me dando ordens na cama, é muito excitante quando sou eu que assumo o controle. Quando estou no controle, eu provoco, eu instigo, o deixo maluco. Eu mando e ele obedece calado. Ele pede e eu faço do meu jeito. Eu sei que ele gosta. E foi pensando nisso que eu passei o final de semana desejando fazer algo mais ousado no dia em que nos encontrássemos de novo. De certa forma, eu queria descontar nele todas as mensagens não respondidas, os compromissos desmarcados e todas as vezes em que ele não me procurou de volta. Eu queria levar a sério esse papel de dominadora, nem que fosse por, apenas, uma hora. Eu queria vê-lo implorando.

— Posso te fazer uma proposta indecente? – perguntei pra ele, de repente, em um corredor quase vazio. Minha voz ecoou através das paredes.

Ele arregalou os olhos, um tanto curioso. Com medo de alguém estar ouvindo nossa conversa, percebi certo embaraço nele, mas, ainda assim, continuei com minha conversa persuasiva: — Deixa eu ficar totalmente no comando na próxima vez em que ficarmos juntos? – falei ao pé do ouvido dele, com um timbre macio, pedindo algum tipo de permissão. Afinal, aquela minha loucura tinha que ser extravasada de forma consensual.

Ele me encarou, ainda calado, como quem quisesse descobrir onde eu queria chegar com aquele convite. A menina boazinha estava, enfim, revelando seu outro lado mais sombrio.

— Deixa eu usar você como meu escravo? – insisti, dessa vez, o olhando nos olhos. — Estou realmente desejando isso. Se você topar, juro que vou fazer cada mordida e lambida valerem a pena.

Estava estampado na cara dele o quanto aquela proposta indecente era tentadora. Mas ele hesitou em aceitar de primeira, talvez, por querer saber mais detalhes sobre as minhas depravadas condições. — Eu vou ter que obedecer todas as suas ordens? – ele perguntou, finalmente, quase num sussurro, tentando sondar o meu nível de perversão.

— Sim. E eu vou de dar uns tapas e outros pequenos castigos se você for desobediente. Tudo bem pra você?

Com certeza, ele já estava excitado com aquela conversa. Mas ele permanecia mudo, com os olhos vidrados nos meus lábios, como um menino que tem medo de ser descoberto assistindo um filme pornô.

— E o quê mais você vai fazer comigo? – ele indagou, torcendo pra que eu entregasse mais detalhes do meu jogo.

— Posso amarrar suas mãos ou vendar seus olhos. Posso fazer isso e outras coisas. – continuei com meu plano de tentar sondar seu nível de aceitação, mas sem deixar mais pistas sobre minhas verdadeiras intenções.

Ele, finalmente, soltou um sorriso. Já estava evidente: ele queria aquilo. Ele queria ser dominado, mas, claro que não ia dizer. E é bom mesmo que não diga, que fique subentendido, afinal, a graça da brincadeira é essa.

— Vou cuidar para não deixar nenhuma marca aparente, e se você quiser parar a brincadeira é só pedir pra sair. Esse é o nosso sinal. Porém, se você aceitar ficar, não prometo te deixar satisfeito, afinal, a intenção é satisfazer tudo aquilo que eu desejo.  E aí, topa? — perguntei.

Só pra me provocar, ele foi embora em silêncio. Ele e aquela mania de sair sempre na vantagem.

Mas enquanto se afastava de mim, ele olhou pra trás e me fuzilou com seu olhar fogoso. Na sua boca, ainda morava aquele sorriso sem-vergonha de quem mal podia esperar a chegada daquele nosso encontro.

— Eu duvido que eu não fique satisfeito. – ele falou, enfim, já a uns dez metros de distância. – Até breve!

A partir dali, comecei a listar as “maldades” que eu poderia fazer com ele. A partir dali, só faltava mesmo eu comprar as algemas e o chicote.

 

Camila Barretto.