Ele aproveitou que estávamos a sós, para checar de perto o meu estado. Parece que o meu sorriso amarelo não o convenceu no nosso último encontro acidental. Aliás, não convenceu nem a ele, nem a mim, nem ao grupo de amigos que nos observou, trocando olhares melancólicos, na ocasião.

— Quero saber se você está bem. – ele inquiriu, me observando com aqueles olhinhos brilhantes do gato do Shrek.

— Quer saber a verdade? – franzi a testa, hesitando um pouco se deveria, ou não, expor minha alma tão machucada. Ajuizei. – Não. Não estou bem. – eu disse, finalmente, emancipando do meu rosto a máscara pesada de que estava levando tudo a mil maravilhas.

A minha hesitação não era à toa. Depois do último ocorrido, eu acabei adquirindo o medo de me expor demais, já que não me sentia pronta para enfrentar o martírio de mais uma batalha entre a gente. É que sempre que abríamos as fronteiras dos nossos sentimentos, a batalha doída entre desejos opostos se tornava a pior consequência.  — Podemos conversar sobre isso outro dia? – eu sugeri, torcendo para que ele compreendesse o meu pedido de trégua.

Ele me olhou calado, sua íris ainda cintilando, como quem quisesse realmente falar sobre o assunto. Como uma mãe paciente que coloca um filho teimoso no colo, eu o peguei pela mão e sentamos num cantinho mais reservado. — Eu só não quero perder sua amizade e sua companhia de vez em quando. — tentei deixar claro, antes que ele achasse que tudo ficaria bem após uma noite de sexo e beijos sem compromisso. Tudo o que eu mais queria naquele momento, era recuperar o meu velho amigo de sempre. Pelo menos, isso.

— Tá certo. – ele travou, tentando conter sua voz embargada. — Mas, mesmo não parecendo, estou preocupado com você.

Ouvir isso me deixou com um nó na garganta. Na última semana, ele havia sumido. E, mesmo sabendo que precisávamos de um tempo para reerguer nossas cidades destruídas, sempre nos bate aquela dúvida angustiante: “será que ele não se importa?” Assim, saber que, da parte dele, existia uma sincera preocupação, me fez desnudar seu lado mais humano e solidário. O amei um pouco mais por isso.

— Eu quero saber realmente como você está se sentindo. — ele, estranhamente, insistiu nessa pergunta, talvez, querendo que eu lhe desse mais detalhes subjetivos dos meus sentimentos, uma pista que o fizesse compreender o seu querer tão ambíguo.

Tentei pensar no que responder, pois falar que “eu não estava bem”, não era suficiente. Magoada, decepcionada, assustada, confusa, apaixonada, foram adjetivos que invadiram minha mente, mas que não cairiam bem se ditas naquele momento tão frágil. De repente, me lembrei dos dizeres do caro poeta Paulino: “querer você é estar a um palmo do precipício: um passo e nada mais”. É isso. Uma palavra fora do lugar, e tudo poderia ruir, aquela conversa poderia virar uma bomba atômica e nos explodir em mil pedaços, ele poderia sumir pra nunca mais. Lembrar-me disso me fez afundar em uma imensa tristeza.

— Triste. Essa é a palavra. Mas não é culpa sua. Fique tranquilo. — disparei, secretamente satisfeita por ter escolhido o adjetivo que sintetizava tudo. Eu estava, incontestavelmente, triste por tudo.

— Isso não deixa de ser culpa minha. – ele, ponderou de cabeça baixa, achando que poderia ter cortado o mal pela raiz desde a primeira vez em que me viu, e inventou de se entusiasmar pelo meu sorriso. — Mas eu também estou bastante triste, essa é a realidade. Isso está me abalando muito mais do que eu imaginava. E o pior, é que eu estou deixando transparecer totalmente o que eu sinto. Está evidente pra quem me conhece.

O nó na garganta que já existia se transformou num nó cego, praticamente incapaz de ser desfeito. Imaginei aquele homem perdendo o sono por mim. Me passou um filme pela cabeça. Me lembrei do início de tudo. De quando ele não transparecia nada. De quando eu achava que tudo não passava de um jogo. De quando ele revelou que me via com outros olhos. Do dia em que eu tive a certeza que ele estava apaixonado. Era visível que ele passou por um processo lento e progressivo de aceitação daquilo que sentia. Talvez, no começo de tudo, eu até tenha sido um jogo sem muita importância, uma aposta vencida por ter conquistado a menina mais cobiçada do andar de cima. Mas, definitivamente, joguinhos não são capazes de abalar de tal maneira as estruturas de um homem. O que era atração havia evoluído para algo capaz de transcender sua alma, de revirar seu jeito de ser.

Após essa conversa inesperada, nos despedimos com a promessa de nos vermos no outro dia. É claro que sabíamos que o querer ainda era existente, mas, se quiséssemos manter um mínimo de paz dentro dos nossos corações, precisaríamos aprender a conviver com a sensação de estar na beira de um precipício, com a frágil barreira de vidro entre nossas possibilidades.

Enfim, como disse Paulino Solti em seu poema “Linha de Costura”:

“Querer você não é uma questão de querer… é involuntário, é movimento peristáltico, é criança e brinquedo. Você é um brinquedo no outro lado da vitrine; a vida é minha mãe me dizendo que na volta a gente leva.”

 

 

Camila Barretto.