Se você fosse meu, minhas coisas já estariam no seu carro. Sua escova de cabelo guardaria os meus fios castanhos, meu vidro de perfume estaria ao lado do seu, e meu pijama surrado moraria debaixo do seu travesseiro. Se você fosse meu, nossas fotos estariam enfeitando minha estante, a gente escolheria o nome dos nossos filhos, e você tropeçaria em meu chinelo quando acordasse de manhã. Você me ligaria com a voz de sono apenas pra me dar “bom dia” num domingo qualquer.

Mas você não me liga nos finais de semana.
E você apaga o meu nome.
Esconde meus vestígios mais bonitos.
Deleta o meu telefone.

Se você fosse meu, você me apresentaria pros seus amigos mais íntimos, você tocaria toda hora em meu nome, você, quem sabe, deixaria ser tocado. Se você fosse meu, eu não seria um mero sonho inalcançável em seu destino. Eu seria a realidade e o seu dia-a-dia. Eu seria tua em qualquer lugar do mundo e qualquer momento seria apropriado. Eu seria tua, na esquina da sua rua e até na porta do seu trabalho. Se você fosse meu, eu te abraçaria todos os dias. Eu te beijaria até decorar o gosto da sua boca e cada centímetro dos seus lábios.

Mas você não beija minha boca sedenta.
E eu sou só mais um segredo velado.
Quase como uma sombra,
Sempre como um pecado.

Se você fosse meu, talvez não durássemos o tempo que duramos. Ou, talvez, te tendo, eu quisesse exatamente o contrário. Eu me cansaria das suas manias? O seu olhar perderia a cor? Se você fosse meu, será que existiria essa mesma sintonia? O desejo irrefreável por seu corpo? A vontade de nos vermos todos os dias?  Se você fosse meu, quem sabe, eu nem te pertenceria. E você, possivelmente, estaria em outros braços. Porque, pode ser que o que nos prende hoje, seja contraditoriamente, a nossa estranha liberdade…

De querer sermos sempre um ao outro.
Mas, no fundo, não sermos nem a metade.

 

 

Camila Barretto.

“Este texto faz parte da 2ª edição do Desafio das Palavras (Camila Barretto x Giulia Christy) – um jogo proposto com o objetivo de versar sobre temas vindos de fora pra dentro; inspirar-se ao contrário. Duas escritoras, cada uma com seu olhar sobre o tema/título.”