Você me arrancou da sua vida e eu tive a obrigação de fazer o mesmo. Confesso que é difícil precisar quando preciso, compreender o incompreensível e achar uma resposta para aquela pergunta que continua a ecoar na minha mente: “por que você se foi sem me dizer adeus?” O vazio incalculável permanece e ele parece não estar muito interessado em ir embora. Sabe, pra mim seria muito mais reconfortante qualquer explicação simplória sobre o término da nossa paixão, mesmo que não fosse a resposta mais coerente do que, de fato, lhe causou essa partida silenciosa.

O seu lugar encontra-se aqui do jeito que você deixou – ou um pouco mais bagunçado -, sinto a necessidade de colocar alguma placa indicando que está “reservado”. Em contrapartida, não sei se você volta, não sei se as nossas vidas vão se esbarrar novamente, não sei qual minha parcela de culpa no seu sumiço. As especulações são diversas, quase intermináveis. A única coisa que sei é que eu tenho uma lembrança carinhosa e esplêndida da pessoa que, um dia, você foi. É duro pensar na ideia do recomeço sem você, sem o seu cheiro, sem os seus olhos cheios de magia e encanto nos meus.

Lembro do nosso primeiro encontro, onde houve tanta sintonia que tinha a impressão que nos conhecíamos há anos. Lembro dos diálogos salvíficos sobre os valores da vida e das riquezas que dinheiro nenhum no mundo é capaz de comprar e sinto saudades. É bem verdade que me apego e ressalto os momentos agradáveis. Ou os recrio na minha imaginação. É instinto de sobrevivência oferecendo motivações para que eu me mantenha de pé. Você dizia que revelava demais os bastidores. Segredo é uma palavra que não cabia em nosso dicionário. E não havia dúvidas: a gente se gostava na mesma proporção que se curtia.

Existia uma conexão clara e objetiva na trama onde nunca permitiu ensaios.

Sobre esse enredo, fui personagem protagonista, e hoje, talvez, eu seja apenas uma figurante com o papel de ilustrar a peça ou o filme que esteve em cartaz no mês passado. Quanto mais você me anula, mais busco os porquês. Tenho ciência plena que ninguém tem a incumbência de sustentar uma relação na qual não está satisfeito, mas acredito veementemente que o outro tem o direto de saber o pretexto do fim. É desonesto da sua parte me deixar com essa incógnita, é desonesto fugir do que sente por medo, é desapego do próprio ego. Talvez, eu não tenha retorno desse e-mail, como não tive das ligações, nem das mensagens, mas sinto a necessidade por desencargo de consciência e porque você mesmo me ensinou a ser muito livre contigo. Seja o que for, me sinto leve por ter feito tudo o que estaria ao meu alcance pra dar certo e ter lutado até o fim.

P.S: Até hoje espero a mensagem da sexta à noite: “Cheguei em casa bem”. Ela ficou no meio do caminho, assim como você.

Até logo!

 

— Giulia Christy (Escritor Parceiro)

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Um pouco sobre elaOlá, muito prazer, me chamo Giulia Christy. Sou potiguar arretada com muito orgulho, acadêmica em psicologia, colecionadora de histórias, amante da vida. Tenho duas décadas de experiências e de alguns tropeços que resultam sempre em aprendizado. Apaixonada pela leitura que me faz viajar sem sair do lugar e pela pureza das crianças que me torna mais sensível a esse mundo desumano. Aquariana intensa, vamos até o fim, ou nem começamos. Fujo dos padrões e a única regra que aceito é a de amar sem medidas