Sexta-feira. Meio-dia. Era pra ser só mais uma espera na fila de um restaurante, mas eu olhei pro lado e presenciei algo que ainda não estava pronta: ele estava saindo com outra. A tratando com carinho. Planejando, quem sabe, o próximo encontro em qualquer motelzinho de esquina.

Perdi o chão ao ver aquilo. Perdi a fome e minhas últimas esperanças.

Contudo, me fiz de forte. Por fora, me obriguei ficar bem. Mas por dentro, eu achei que fosse ter um treco. Comecei a suar frio. Comecei a sentir o coração trepidar feito o chão invadido por uma cavalaria desgovernada. A garganta apertou, alguma coisa pontiaguda perfurou meu estômago e atingiu em cheio meu peito. Era a flecha do meu orgulho ferido. Do meu arrependimento. Era o meu cotovelo, insuportavelmente, dolorido. Sim. Ele já estava com outra. Era claro, evidente, previsível.

Ela percebeu minha presença.

Eu estava sangrando horrores, mas, por fora, eu arregalei um sorriso. Eu arregalei um sorriso, mas por dentro, eu estava morrendo. Morrendo de ciúmes de alguém que nunca se entregou por inteiro e que agora, obviamente, já estava enroscando sua língua em outra boca. Já ela, feito sereia sedenta, já havia fisgado seu corpo, mergulhado em seus olhos tão profundos. Feito eu, ela também estava se apaixonando. E quem não se apaixonaria? Finalmente, eu percebi naquele encontro inesperado o que de fato, já estava consumado. Ele e a sereia que eu imaginei inofensiva, de algum modo, já se pertenciam.

— Seu nome, senhora? — perguntou o moço da recepção, talvez pela segunda ou terceira vez, cortando, de súbito, meus pérfidos pensamentos. Eu já não conseguia processar qualquer palavra. Eu me senti ridícula, infantil, impotente. Meus sentimentos confusos se debatiam em todo canto, sufocados, feito peixes fora d’água. Na minha cabeça, só ecoava o estalo do beijo que ele deu no rosto daquela menina de cabelos compridos. Ali. Logo ali, a meio metro de distância do meu falso sorriso. A essa altura, esqueci até meu nome. A essa altura, eu só sabia me perguntar há quanto tempo eles estavam juntos, e a imaginar eles

Se encontrando.
Se beijando.
Se amando.
Me matando por dentro.

— Senhora? — era o moço, novamente, me chamando a atenção.

Meus músculos estavam rígidos, tal como meus lábios forçosamente cerrados. Meu coração estava desobediente, convulso. Estiquei o braço e entreguei minha cédula de identidade, porque, com aquele nó na garganta, era humanamente impossível fazer minha voz ser ouvida. Em pouquíssimos instantes, senti a temperatura, ao meu lado, aumentando. De canto de olho, reparei a troca de olhares entre eles. O afeto embutido no toque entre peles. O jeito dela pegar nos cabelos. O constrangimento evidente que ele sentiu por eu ter presenciado essa cena. Sim, eu vi. A mão na cintura. Sim, eu vi. Eu captei tudo. Apesar do sorriso, por dentro, eu estava chorando — de saudade, de dor, de tristeza. Eu estava chorando porque ainda o amava tanto.

Só haviam se passado sessenta segundos naquela maldita fila. Mas por dentro, eu estava morrendo de algo que eu jurei nunca sentir um dia. É que ele estava saindo com outra. A tratando com carinho. Planejando, quem sabe, o próximo encontro em qualquer motelzinho de esquina. Ou será que tudo foi coisa da minha imaginação?

Infelizmente, eu duvido.

Camila Barretto.