A bateria do celular já estava acabando, mas eu precisava dizer pra ela como eu estava me sentindo. O tempo que ela tinha me pedido pra pensar, pra mim, já tinha sido suficiente, e por isso, insisti em perguntá-la:

— Tem certeza que você quer mesmo ficar longe de mim?

— Você não me deu muitas opções. — ela disse, secamente. Seu tom de voz não me convenceu. Senti que, no fundo, ela queria se sentir verdadeiramente desejada. Ela queria ver realmente até onde ia meu interesse. Não hesitei em tentar contornar a situação: — Escuta, não tenho muito tempo. Sei que não sou o Romeu que você estava esperando, mas quero te provar que nossa história pode dar certo.

— Eu cansei de dividir a nossa história com outras pessoas.  Agora é você quem precisa me escutar. Como pode me querer por inteiro se você só me doa metades? — ela disse de um jeito atipicamente arredio. Há tempos não a via agir daquele jeito. Ao ouvir aquilo meu lado mais irracional me trouxe um súbito orgulho me fazendo sentir vontade de desistir de tudo. De dizer que eu não queria mais. De dizer que quem perdeu foi ela. Mas, era óbvio que quem ia perder era eu. O carinho incondicional que tanto ela quis me dar e que eu quase nunca retribuí. A chance de ser um homem melhor. Respirei fundo e tentei suavizar o máximo possível a minha expressão estarrecida. Eu não queria que ela desistisse de mim: — Desculpa se te fiz sofrer. — sussurrei. Minha voz estava engasgada. Acho que nem eu confiaria mais em minhas desculpas depois de tudo o que eu fiz. — Deixa eu te ver hoje, só mais uma vez? — era o meu ultimato.

— Por que eu deveria? — disse ela, talvez tentando manter o controle da situação. Mas ela sabia que, quando o assunto era a possibilidade de me ver de novo, as palavras fugiam do seu comando. Assim, ela respondeu quase de forma uníssona, como quem tem medo de se arrepender: — Ok. Quando?

Com um sorriso de canto e um olhar cheio de malícia, eu ainda arrisquei a nossa velha brincadeira de sempre: — Sabia que você não ia me dizer não. — pelo telefone, dava pra saber que eu estava disfarçando, desesperadamente meu riso de menino travesso. Mas eu não queria que ela achasse que eu estava brincando. Eu queria mostrar seriedade. Porém, a minha felicidade por um novo reencontro estava mais que evidente, transbordando pelo meu rosto, pela minha alma. Quando pensei em dizer o local e o horário, ouvi um bip.

Inferno! Meu telefone descarregou de vez!

A voz dela se foi, mas dentro de mim, ainda ecoava o sentimento tão puro, mas que eu tanto negava. Quando me vi diante do meu próprio silêncio, percebi o quanto eu tinha sido infantil naquela tarde. Na minha vida. Em todos aqueles meses em que ela tentou me manter ao seu lado. Tudo o que ela queria era ter uma conversa séria comigo, uma conversa que aliviasse suas dúvidas e desse razão aos seus sentimentos confusos, e eu, como sempre, consegui estragar tudo com minhas brincadeiras fora de hora. E se ela não quisesse falar comigo nunca mais?

Por um momento, duvidei se meu celular tinha realmente descarregado. Por um segundo, me passou pela cabeça que ela, tomada pela decepção, tinha desligado o telefone da forma mais raivosa possível. Enquanto eu mexia freneticamente nos botões do celular na esperança de que conseguisse recuperar 1% daquela inútil bateria, eu pensei que não demoraria muito para ela encontrar alguém que realmente a valorizasse. Talvez isso acontecesse naquela mesma noite, quando ela decidisse sair com as amigas para esquecer essa nossa última conversa estranhamente inacabada. Eu a tinha perdido para a minha incapacidade de fazer valer a pena.

Minutos se passaram. Minutos que pareceram anos. Olhei pela janela do ônibus e vi um engarrafamento sem fim se formando à minha frente. De repente, fui tomado pela curiosidade do que ela estaria fazendo naquele exato momento. Eu precisava arranjar um jeito de pedir, pela milésima vez, desculpas. Se eu fosse ela, não me desculparia, mas, dessa vez, eu jurava que era verdade. Eu até poderia aceitar sua distância, mas não sua mágoa irremediável. Senti borbulhar lágrimas nos olhos, uma sensação rara que eu não sabia como lidar.

Com essa sensação incontrolável de fragilidade, eu tive um estalo. Pedi ao motorista para parar no próximo ponto. Desci em frente a uma floricultura do bairro, e comprei as flores mais baratas. Não eram as que eu queria, mas eram as que o meu dinheiro dava. Sei que seu coração de menina doce pouco se importaria com isso. A atendente me deu o troco, junto com um cartão de brinde. Talvez ela tivesse sentido pena dos meus olhos vermelhos e da minha cara atordoada. Enquanto ela embalava as flores, pedi encarecidamente para carregar meu celular. Liguei o aparelho e ouvi o som de uma nova mensagem. Era ela. Uma mensagem de quase duas horas atrás:

“17:30, no lugar de sempre.”

Quase pude ouvir o timbre de voz dela me chamando. Minhas mãos tremeram como se fosse o nosso primeiro encontro. Aquele encontro em que eu ainda não tinha cometido todos esses erros e que não voltará jamais. Perguntei a moça se dava ainda tempo de chegar no bairro vizinho em menos de vinte minutos. Nem bem ouvi sua resposta, e saí correndo com as flores na mão. Acho que ela achou que eu era maluco. Ou estava perdidamente apaixonado. Ou, os dois. Não deu tempo de responder mensagem alguma. Eu precisava tentar encontrá-la naquele dia.

Cheguei no local de sempre, com o coração na mãos. Primeiro, porque nunca havia corrido tanto na minha vida. Além disso, mesmo que eu tivesse recebido a mensagem dela, eu não imaginava que ela fosse realmente me encontrar. De longe, olhei pro nosso banco de sempre, e quase não acreditei naquela cena. A menina tão forte e decidida, estava totalmente entregue às lágrimas, pelas quais eu tinha certeza que era o culpado. Ver aquilo me cortou o coração.

Simplesmente, aquela menina havia mudado a minha forma de enxergar as coisas, e acho que nem mesmo ela sabia disso. Por ela, me tornei um homem mais doce, mais carinhoso, menos introspectivo. Por ela, corri vários quilômetros com um buquê de flores nas mãos. Uma cena, patética, mas tão necessária naquele momento. Nunca tinha feito isso por nenhuma outra, mas, ainda assim, eu não era merecedor de tudo que ela já tinha feito por mim.

Olhei para as flores já amassadas dentro do papel de embrulho, e lembrei que minha roupa também estava horrivelmente amarrotada. Me envergonhei por ter chegado naquele estado, e quase desisti de me aproximar, por um instante. Mas eu não tinha muito tempo. Não era hora pra covardia. Respirei fundo, e, fui me aproximando dela, sentindo o cheiro do seu perfume, quando, de repente, ela notou minha presença. Ficamos pálidos. Eu estava constrangido pelo suor no meu corpo. Ela fez de tudo para disfarçar sua maquiagem borrada pelas lágrimas. Nos entreolhamos, e, sem dizer quaisquer palavras, sentei ao seu lado. Ali já não havia a parte mais bonita do amor. Havia a parte mais estranha, mais explícita, mais real. Dessa vez, eu me conscientizei que não era mais momento para brincadeiras. O fim estava tão evidente, que ecoou no nosso silêncio.

Nessa hora, eu percebi que apesar de a querer tanto, eu não a amava como deveria. Eu queria transformá-la em alguém que ela ainda não estava pronta. Eu queria mudá-la, apenas para satisfazer os meus insanos desejos. E essa não é a forma correta de amar alguém. Enquanto ela suspirava do meu lado, tentando reprimir o restante das emoções, eu abri o cartão que trouxe com as flores, e escrevi, em letra de forma, as palavras mais sinceras que já dediquei a alguém um dia. Eu havia pensado nelas durante todo o caminho.

Antes de ir embora, a olhei profundamente, e lhe dei um beijo no rosto. Pra mim não era um beijo de adeus, mas talvez, para ela seria. Aquele cartão que eu tinha deixado junto com as flores, provavelmente, poderia carregar as minhas últimas palavras – ou não. Afinal, só dependia dela querer me dar uma última chance.

Uma última chance, num próximo verão, pro nosso sol renascer.

Camila Barretto e Flora Medeiros.