Sem qualquer expectativa, fui checar as novidades diárias no celular, nem imaginando que ele estivesse entre elas. Mas ali estava: seu nome difícil, seu sorriso aberto e sua costumeira foto de camisa vermelha. Há vinte minutos, uma única frase esperava para ser lida, esta talvez, redigitada mais de cem vezes pelos seus dedos indecisos.

Assim, ele escreveu: “precisamos nos despedir”.

Ele me mandou essa mensagem poucos instantes depois de ter me visto de relance, de ter me olhado com ternura, e, certamente, depois de ter sentido alguma saudade. Depois de uma quarentena de silêncio absoluto, em que eu quase nos marquei na minha agenda de compromissos como um assunto encerrado, ele me enviou uma súbita mensagem com vestígios de desejo. Vestígios de que ainda há vida no seu planeta de sentimentos inabitáveis.

Porém, ele havia falado em despedida. No meio da sua frase, não havia emoctions felizes, não tinha como sondar se existia um sorriso matreiro por detrás daquilo. Dessa vez seria pra valer? Meu coração congelou, mesmo sabendo que já nos despedimos por tantas vezes, e de tantas formas, durante o ano. Logo imaginei que ele iria mudar de cidade, que iria pra bem longe como tantas vezes, ele me falou brincando. Logo me passou pela cabeça uma cena diferente das outras: um adeus de cinema, como aqueles que se dá chorando em aeroportos, daqueles quando o mocinho resolve partir, para nunca mais voltar.

Mas, pouco a pouco, entendi que ele não iria pegar o próximo vôo. Pouco a pouco, eu entendi as suas implícitas intenções. Sua “despedida”, na verdade, era um pretexto para um flashback disfarçado. Um revival de sensações pra renovar em seus pulmões o aroma da minha pele, pra guardar meu gosto em sua boca, pra me ter, nem que fosse, só mais cinco minutinhos ao seu lado.

Descobrir que sua “despedida” era um simples chamado para um último reencontro, tornou-se em mim, um perigoso convite para o recomeço. E lá estávamos de novo: recomeçando o que já havíamos terminado, entregues aos beijos de uma instável paixão, mas que, de tão intensa, desconhecia o significado de tempo. Uma paixão que parecia ter vida própria dentro da nossa própria vida.

Mas o que fazer quando uma pessoa pede só mais cinco minutinhos ao seu lado, e por dentro, tudo o que você mais queria é tê-la por perto a vida inteira?

Camila Barretto.